A aposta da Fundação Rockefeller no Brasil, referência em merenda escolar
Lyana Latorre, vice-presidente da Fundação Rockefeller para a América Latina e o Caribe, vê o Brasil como uma referência mundial em alimentação escolar. Em conversa com a coluna GENTE, a executiva falou sobre o novo Relatório de Impacto Global da instituição, Big Bets, Real Results, que aponta 59 milhões de dólares destinados à região em 2025, primeiro ano de operação do escritório regional da fundação. Em meio à queda da ajuda internacional de países como Estados Unidos e da Europa, Lyana defende que a filantropia deixe a lógica da emergência e avance para mudanças mais sistêmicas.
Qual é a diferença entre caridade e filantropia? Quando cheguei, decidimos fazer um exercício de escuta para entender o que estava acontecendo na região em termos de filantropia. E encontramos muita generosidade. A maioria dos países na região é católica, tem um componente religioso grande. Então, as pessoas estão acostumadas a dar, a compartilhar com quem está ao redor. Mas isso é muito diferente do que é filantropia. Acho que há uma confusão entre isso. Existem coisas que são caridade e existem coisas que são trabalho filantrópico, e é muito diferente. Não estou dizendo que caridade é ruim. Acho ótimo, faça. Mas caridade é mais informal. Filantropia requer mais método para as coisas, algo mais sistêmico.
Como a queda da ajuda internacional muda o papel da filantropia? Nós, definitivamente, não conseguimos fechar essa lacuna. Ano passado foi um momento crítico para a ajuda internacional, que vem de diferentes países, não só dos Estados Unidos, mas da Europa também. Muitos desses recursos passaram por uma mudança bastante dramática. Uma oportunidade para o setor filantrópico repensar a forma como estamos trabalhando e repensar a forma como estamos pensando sobre filantropia. E parar de pensar que isso é caridade. Nesses países, no Brasil e na região, estamos acostumados a viver no que chamo de modo de emergência, porque há muitas coisas, muitas necessidades que precisam ser cobertas imediatamente.
A filantropia consegue ocupar esse espaço sozinha? Há alguns riscos que podemos assumir para dar algum apoio, porque não somos o setor privado, não somos um negócio. São recursos que podem assumir esses riscos para apoiar diferentes iniciativas. Mas é algo que não podemos fazer sozinhos. Se tivermos uma boa compreensão, uma boa definição do que é isso, será mais fácil trabalhar com outros atores, com o setor privado, que é muito importante nesses países.
Por que o Brasil é tão importante para a Fundação Rockefeller? O Brasil sempre foi importante na nossa história e no nosso legado. Lá atrás, nos anos 1920, 1930, houve muito trabalho que fizemos em agricultura e em saúde. Agora, sob a minha gestão, há muitas coisas acontecendo no Brasil que são importantes para nós: o componente de biodiversidade, a importância da agricultura para o país e o fato de o país ser uma referência em alimentação escolar.
Por que a merenda escolar virou uma “grande aposta”? Porque a nossa grande aposta na Fundação Rockefeller agora é garantir que consigamos chegar a mais crianças com alimentação escolar regenerativa [modelo que conecta a merenda escolar à agricultura sustentável, promovendo dietas ricas em nutrientes] todos os dias. E o Brasil tem um modelo de alimentação escolar muito antigo, muito forte, que é referência para o mundo.
Como esse projeto funciona na prática? Fizemos um anúncio no ano passado de colocar 100 milhões de dólares para 10 milhões de crianças no mundo, em cinco anos, para que elas possam ter uma refeição escolar regenerativa ou saudável. Estamos trabalhando de perto com todo o ecossistema de alimentação escolar no Brasil, para oferecer comida melhor e mais nutritiva para as crianças, entendendo que isso é um gatilho para que elas tenham um desenvolvimento melhor, não só cognitivo, mas também físico.
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