A aposta da Inglaterra no “rei do mata-mata”
Foi sofrido. Depois de levar um gol do congolês Cipenga aos 6 minutos de jogo, a Inglaterra passou mais de uma hora atrás no placar. O empate só veio aos 29 do segundo tempo, e a virada aos 40. Dois gols de Harry Kane. A Inglaterra está viva na Copa do Mundo de 2026, e o homem que ela escolheu para carregar esse sonho entregou mais uma noite de mata-mata controlado. A vitória sobre a República Democrática do Congo, no Estádio de Atlanta, pelos 16 avos de final foi calculada há mais de dois anos, quando a Associação Inglesa de Futebol (FA) começou a pensar em quem assumiria o cargo de treinador da seleção depois de oito anos de Gareth Southgate.
A FA queria mirar alto. Sabia que a janela para vencer um torneio com esse grupo de jogadores – considerada por muitos o melhor da história – era finita, já que a estrela Harry Kane faz 33 anos em julho. Era preciso encontrar alguém capaz de ganhar esta Copa do Mundo. Então a entidade elaborou uma lista de características que acreditava correlacionar com o sucesso em torneios, entre elas o estilo de jogo, a flexibilidade tática e, crucialmente, o histórico do treinador em mata-matas.
Nesse quesito, Thomas Tuchel, então no Bayern de Munique, se saiu excepcionalmente bem. Sua capacidade de conduzir uma equipe ao longo de uma copa, jogo a jogo, era considerada imbatível.
Tuchel já ganhou campeonatos de pontos corridos na França, com o PSG, e na Alemanha, com o Bayern Munique, mas foram as copas que lhe puseram na primeira prateleira de treinadores. Na temporada 2019-20, levou o PSG à sua primeira final de Liga dos Campeões, eliminando Borussia Dortmund, Atalanta e RB Leipzig. Perdeu por 1 a 0 para o Bayern, em uma final disputada a portas fechadas em Lisboa por causa da pandemia. Foi demitido pouco depois.
Acabou acertando com o Chelsea, na Inglaterra. Sua chegada ao time londrino foi descrita pelo auxiliar Barry como a de um “OVNI”: transformou a equipe quase instantaneamente, implantando um sistema 3-4-3 e reorganizando a defesa. Fez uma Liga dos Campeões da Europa arrasadora. Eliminou o Atlético de Madrid nas oitavas, o Porto nas quartas e o Real Madrid nas semifinais, com vitória por 2 a 0 em casa após empate de 1 a 1 fora. Na final enfrentou o Manchester City de Pep Guardiola e Kevin De Bruyne, que havia dominado a Premier League com folga. Tuchel admitiu que jamais havia ficado tão tenso antes de uma partida. Apelou para exercícios de respiração com um profissional para não ter um piripaque na véspera da final. Mas o plano funcionou, o Chelsea se impôs na marcação, e ganhou a troféu com uma vitória de 1 a 0. Tuchel terminou a noite campeão europeu.
No Bayern, esteve a minutos de alcançar a terceira final com um terceiro clube diferente, em 2024, mas Manuel Neuer entregou uma bola nos pés de Joselu, do Real Madrid, já nos acréscimos da semifinal.
Em todas essas campanhas, Tuchel demonstrou a mesma flexibilidade, a mesma intensidade e a mesma capacidade de elaborar um plano específico para cada adversário. É nesse tipo de futebol que suas habilidades são excepcionais.

Nesta quarta, usou de sua experiência para manter o time calmo e concentrado nos momentos de dificuldade depois de sair atrás no placar. A Inglaterra martelou o goleiro Mpasi durante mais de uma hora até Kane receber um cruzamento sozinho na linha da pequena área, a ponto de mal precisar pular para testar a bola para o fundo das redes. “Tivemos o pior início possível. Melhoramos com a pausa para hidratação, e fomos consistentes no ataque o tempo todo. Eu tinha avisado para meus jogadores: se ficar difícil, não percam a crença, não se desorganizem. Confiem no que treinamos, vai dar certo. Temos que dar crédito à nossa mentalidade, não desistimos nunca”, disse, depois do jogo.
Sejamos justos, o maior herói não estava na beira do campo. Estava lá dentro da área, de onde acertou um balaço de direita quase no ângulo de Mpasi para selar a vitória e classificação às oitavas-de-final. Seu nome é Harry Kane. “É o melhor que eu já vi, e ele continua melhorando a cada dia”, derramou-se Tuchel, ao fim da partida.
Agora, a Inglaterra enfrenta o México nas oitavas, no mitológico estádio Azteca. Será a maior prova de fogo que Tuchel já enfrentou em um mata-mata, contra os anfitriões de uma Copa do Mundo. E se passar, encara o vencedor de Brasil e Noruega nas quartas-de-final. O tempo dirá se a fama de “rei do mata-mata” vai resistir.