A despedida agridoce – e saborosa – da série ‘O Urso’ em sua quinta temporada
Poucas produções televisivas conseguiram representar tão bem as virtudes e os excessos da alta gastronomia como a série O Urso, de Hulu e Disney+. Criada por Christopher Storer, a trama construiu sua reputação ao lançar um olhar melancólico e profundamente humano sobre personagens em constante estado de tensão dentro do universo dos chefs de cozinha que buscam constantemente a excelência — e uma estrela Michelin. Após uma primeira temporada brilhante e outras um pouco menos inspiradas, agora, em sua quinta e última temporada, a produção protagonizada por Sydney (Ayo Edebiri) e Carmy (Jeremy Allen White) se despede de forma agridoce e saborosa.
O encerramento chega depois de uma trajetória marcada por aclamação crítica e domínio nas principais premiações americanas. Ao longo dos anos, The Bear acumulou 21 Emmys e alimentou uma discussão recorrente sobre sua classificação como comédia, categoria na qual concorria apesar de se aproximar muito mais do drama psicológico do que de uma sitcom convencional. A controvérsia, no entanto, nunca diminuiu o prestígio da série, que transformou a rotina de um restaurante em uma das experiências mais intensas da televisão recente. E as cenas cômicas de fato não são aquelas de provocar risos em uma plateia atrás das câmeras, são momentos inesperados que arrancam risadas — às vezes até amargas.
Na reta final, a narrativa acompanha o que pode ser o último dia de funcionamento do restaurante que dá nome à série. Sem o apoio financeiro do tio Jimmy (Oliver Platt) e após Carmy declarar que vai sair do negócio, fica a cargo de Syd a missão de manter o negócio de pé. A chef precisa administrar uma sucessão de crises enquanto busca impressionar clientes importantes e um possível inspetor do Guia Michelin, cuja avaliação pode determinar o futuro do empreendimento.
Atenção: spoilers da quinta temporada de o Urso
O adeus de O Urso tem tudo aquilo que fez da série um fenômeno: o caos que leva todos ao seu redor ao limite do limite, já que tudo parece dar errado. A temporada começa com uma verdadeira tempestade assolando a cidade de Chicago, provocando um problema de encanamento que leva um pedaço do teto a cair e um alagamento dentro do estoque. O sistema de reservas também falha, causando um congestionamento de pessoas interessadas a comer lá, e os ingredientes estão acabando. O resultado é uma sucessão de momentos angustiantes que encontram alívio justamente na capacidade dos personagens de seguir adiante apesar do caos.
Nem sempre o equilíbrio entre drama e humor funciona com a mesma precisão. Em alguns momentos, a temporada se aproxima de um peso emocional excessivo, algo que já dividia opiniões em anos anteriores. Quando aposta no humor ácido, porém, a série reencontra parte de sua melhor forma. Situações envolvendo Richie (Ebon Moss-Bachrach) e os problemas de atendimento rendem momentos genuinamente engraçados, enquanto outros são mais tocantes e agridoces.
Se a cozinha continua sendo um ambiente de pressão constante, ela também se tornou um espaço de pertencimento, solidariedade e reconstrução emocional. Ao fim, The Bear parece defender que nem todo sucesso precisa ser medido por estrelas, prêmios ou lucros. Para uma série que passou anos recusando atalhos criativos, encerrar a jornada mantendo seu sabor peculiar talvez seja a recompensa mais apropriada.