‘A distância tecnológica entre China e EUA nunca foi tão pequena’, diz autor de novo livro
A desaceleração econômica, a crise imobiliária e o envelhecimento da população alimentaram, nos últimos anos, uma narrativa de que a China estaria entrando em um período de declínio.
Para Joe Ngai, presidente da consultoria McKinsey na China e coautor do livro The Next China Is Still China (ainda sem tradução), essa leitura ignora transformações profundas em curso no país.
Segundo ele, a economia chinesa continua respondendo por cerca de 30% do crescimento econômico mundial, enquanto empresas locais avançam rapidamente em setores como veículos elétricos, inteligência artificial, robótica e manufatura avançada.
Nesta entrevista, Ngai discute os principais equívocos do Ocidente sobre a China, o desafio enfrentado por multinacionais, a corrida tecnológica com os Estados Unidos e o impacto da crescente competitividade chinesa sobre países como o Brasil.
O Ocidente está entendendo errado a situação da economia chinesa?
Acho que sim. Existe a percepção de que a China está em dificuldades porque o crescimento desacelerou, o desemprego entre jovens aumentou e a crise imobiliária reduziu a confiança.
Mas é preciso colocar isso em perspectiva. A economia saiu de taxas de crescimento de dois dígitos para algo em torno de 4,5%. Ainda assim, continua sendo responsável por aproximadamente 30% do crescimento econômico mundial.
Quando você visita a China, percebe que o padrão de vida continua melhorando. O consumo também é frequentemente mal interpretado. Muitos olham apenas para o valor nominal das vendas. Só que os preços caem constantemente. As pessoas continuam comprando mais produtos e serviços, mas pagando menos por eles.
Qual é hoje o principal erro de investidores e empresários ao analisar a China?
Muitos acreditam que a competitividade chinesa é resultado apenas de subsídios governamentais.
Os incentivos públicos tiveram papel importante na fase inicial de diversos setores, mas, à medida que as indústrias amadureceram, a principal fonte de competitividade passou a ser a intensidade da concorrência.
No livro, descrevo a China como a academia mais competitiva do mundo. Empresas disputam espaço de forma permanente, comprimem margens, aprimoram cadeias de suprimentos e aceleram a inovação. É isso que torna companhias como BYD e Great Wall competitivas hoje.
Se a China continua tão importante, por que tantas multinacionais tentaram diversificar operações para outros países?
Primeiro, é importante lembrar que a maioria das multinacionais foi extremamente bem-sucedida na China.
Starbucks, Nike, McDonald’s e montadoras europeias construíram mercados inteiros no país. O problema é que agora os concorrentes chineses estão avançando rapidamente.
A Luckin Coffee desafia a Starbucks. A BYD pressiona as montadoras tradicionais. Empresas locais ganharam velocidade, inovação e competitividade.
Isso não significa que as multinacionais estejam abandonando a China. Muito poucas saíram. O que mudou foi que competir no mercado chinês se tornou muito mais difícil.
Então a era das multinacionais dominando o mercado chinês acabou?
Acho que sim.
A fase em que empresas estrangeiras ganhavam participação de mercado facilmente e operavam com margens elevadas terminou.
A próxima fase exige mais velocidade, mais inovação e maior capacidade de adaptação. As multinacionais precisam elevar seus padrões para continuar competitivas.
Mas ignorar a China não é uma opção.
Quais fatores sustentam sua confiança no futuro da economia chinesa?
Existem desafios evidentes. A taxa de natalidade é baixa. A população está envelhecendo. O retorno sobre investimentos vem diminuindo.
Mas há duas forças estruturais muito importantes.
A primeira é o talento. A China forma mais engenheiros do que praticamente qualquer outro país. O volume de profissionais em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática é uma vantagem enorme para setores industriais e tecnológicos.
A segunda é a inteligência artificial.
Por que a inteligência artificial pode favorecer a China?
Porque existe uma atitude extremamente positiva em relação à tecnologia.
Em muitos países, a discussão sobre IA gira em torno do medo da perda de empregos. Na China, a visão predominante é diferente. A população enxerga a tecnologia como uma ferramenta para aumentar a prosperidade.
Nos últimos 30 anos, a transformação digital elevou o padrão de vida de centenas de milhões de pessoas. Isso criou uma confiança muito grande na capacidade da tecnologia de gerar progresso econômico.
Essa disposição para experimentar e adotar novas tecnologias pode ser uma vantagem importante na era da inteligência artificial.
Como uma economia que cresce menos consegue produzir empresas tão competitivas?
Porque a competição interna é brutal.
Muitas vezes, os concorrentes chineses não estão preocupados com empresas americanas ou europeias. Eles estão preocupados com o rival que está do outro lado da rua.
Empresas chinesas competem principalmente entre si. Isso as obriga a inovar, reduzir custos e melhorar continuamente.
Esse ambiente produz vencedores extremamente fortes.
O senhor afirma no livro que existe um problema de “hipercompetição” na China. O que significa isso?
Costumo usar uma analogia simples.
Em muitos países, quando alguém abre um posto de gasolina bem-sucedido, outros negócios surgem ao redor: restaurantes, escolas, lavanderias.
Na China, quando alguém abre um posto de gasolina bem-sucedido, outros dez empresários abrem postos de gasolina exatamente ao lado.
Todos fazem a mesma coisa e competem apenas por preço. Isso gera excesso de capacidade, margens reduzidas e baixa rentabilidade.
É um problema real. O governo já reconheceu isso e tenta reduzir o excesso de investimentos em determinados setores.
Essa hipercompetição está sendo exportada para o resto do mundo?
Sem dúvida.
Muitos países não estão preparados para competir com empresas que operam em um ambiente tão intenso.
Na China, é normal receber respostas a mensagens em poucas horas, independentemente do dia da semana. As cadeias de suprimentos operam em ritmo extremamente acelerado.
Essa velocidade se transforma em vantagem competitiva quando as empresas se internacionalizam.
O Brasil está preparado para essa nova concorrência?
Acredito que poucos países estejam preparados.
Mas também vejo oportunidades.
As empresas chinesas precisam aprender a atuar fora da China. Não basta chegar a um novo mercado e competir apenas por preço e eficiência. É preciso construir relacionamentos, compreender a cultura local e se integrar às comunidades.
Nesse processo, parceiros locais podem desempenhar um papel importante.
Quais setores brasileiros estão mais expostos à concorrência chinesa?
Praticamente todos os setores industriais sentirão algum impacto.
Mas a questão já não é apenas custo.
Durante muito tempo, acreditava-se que as empresas chinesas competiam apenas porque produziam mais barato. Hoje elas competem também em tecnologia, inteligência artificial, pesquisa e desenvolvimento.
Essa é a grande mudança.
Tarifas e barreiras comerciais são uma solução?
São uma resposta tentadora para muitos governos, mas não resolvem o problema central.
Se um concorrente está melhorando mais rápido do que você, fechar o mercado pode oferecer proteção temporária, mas não elimina a diferença de competitividade.
A questão fundamental é como aumentar produtividade, inovação e capacidade tecnológica.
O Ocidente ainda mantém liderança tecnológica sobre a China?
Em algumas áreas, sim.
Empresas americanas como a OpenAI continuam sendo referência para muitas companhias chinesas. Há grande admiração por centros de inovação como o Vale do Silício.
Mas a distância diminuiu muito.
Na era dos computadores pessoais, talvez a China estivesse cinco anos atrás dos Estados Unidos. Na internet, a diferença caiu para três anos.
Na inteligência artificial, estamos falando de meses, não de anos.
O que será mais importante na próxima fase da disputa tecnológica?
A aplicação da tecnologia.
Ter o melhor modelo de inteligência artificial é importante. Mas saber usar essa tecnologia em fábricas, cadeias de suprimentos, empresas e serviços pode ser ainda mais decisivo.
A tecnologia está cada vez mais acessível.
A pergunta central não é mais quem inventa primeiro. A pergunta é quem consegue adotar, implementar e transformar essa tecnologia em vantagem competitiva. É essa disputa que definirá os vencedores da próxima década.