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A emocionante história da paixão do Haiti pelo futebol brasileiro

19 de Junho de 2026, 03:37 0 visualizações
A emocionante história da paixão do Haiti pelo futebol brasileiro

Era oportunidade que não poderia ser perdida. Em meados do mês de agosto de 2004, o diretor de cinema e publicidade João Dornelas, então próximo da produtora Pródigo Filmes, me procurou com uma proposta: acompanhar o desenvolvimento de um documentário em Porto Príncipe, no Haiti, em torno do amistoso marcado para 18 de agosto daquele ano entre a seleção brasileira e a do Haiti. Devo ter levado uns dois segundos, talvez menos, para dizer sim, eu vou. Em seguida, Dornelas me apresentou ao outro diretor Caíto Ortiz, cujo trabalho já conhecia pelo excelente Motoboys – Vida Louca, do ano anterior. Não demorou para que me reunisse também com os sócios da produtora, e bola para a frente – em menos de uma semana precisaríamos viajar. Minha função inicial: algum trabalho de organização preliminar da filmagem e, lá estando, ajudar na tradução. Por conseguir me expressar em francês, sim, mas logo descobri que o recurso teria utilidade apenas mediana, dado o apreço dos autóctones para se expressar em creole. Nascia, então, de uma hora para outra, O Dia em Que o Brasil Esteve Aqui.

O trabalho, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em outubro daquele ano, era o registro de um instante mágico, comovente, quase inacreditável. Por uma única tarde – os jogadores e o treinador Carlos Alberto Parreira não poderiam dormir na cidade, dada as dificuldades de segurança – pararam a capital. O cortejo do aeroporto ao estádio Sylvio Cator reuniu ao menos 500 000 pessoas. As imagens são espetaculares e emocionantes, entre o choro da população e o espanto de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e cia. As filas para a compra de ingressos, dois dias antes, também haviam parado o Haiti.

A motivação da partida: um gesto de paz, um interregno de esperança para uma nação ferida por uma crise institucional e a atávica violência, como se fosse impossível apagar o tempo de Papa Doc, Baby Doc e os Tontons Macoutes, a milícia criminosa avant la lettre. Não por acaso, o embate foi batizado de “O Jogo da Paz” – paz que não houve, depois atropelada também pelo terremoto de 2010, e que ainda hoje é quimera distante, em um país loteado por gangues (lembre-se que o time que hoje enfrenta o Brasil na Filadélfia defendeu todos os jogos domésticos das eliminatórias em Curaçao).  Os craques brasileiros representariam algum oxigênio, e foi o que aconteceu, ainda que apenas por algumas horas.

Mas por que o Brasil, para além da excelência de seus jogadores, que dois anos antes tinham conquistado o penta? No início daquele ano, as forças armadas brasileiras foram indicadas para organizar a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, a Minustah. O comandante das tropas era o general Augusto Heleno, que depois viraria ministro de Jair Bolsonaro, acusado e condenado pelas infames tentativas golpistas de 8 de janeiro. Heleno, com a desfaçatez de interesses próprios, naquele momento elogiava o presidente Lula – que, aliás, também esteve no Haiti. O tempo tratou de criar novas camadas para aquela história, e aquele momento. Heleno, ressalta-se com ênfase, foi criticado – em processo ainda debaixo de investigação – por ter feito uso excessivo da força para desmantelar os grupos de bandidos que se espalhavam por boa parte daquele pedaço de terra caribenha.

“Esse filme fala do amor de um povo com outro, carrega sonhos, virou uma cápsula do tempo, de um Brasil querendo fazer parte permanente do Conselho de Segurança da ONU, no primeiro mandato de Lula, momento de muita esperança”, diz Caíto Ortiz. “O jogo desta Copa, para nós, pode até não ter tanta relevância, mas move corações e mentes no Haiti”. Para João Dornelas, “é muito mais do que um filme sobre futebol, trata de ilusões e desilusões” Diz Dornelas: “O filme envelheceu bem, retrato de um momento histórico de muita inocência, como se aquilo fosse fazer diferença na vida dos dois países”.

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O Dia em Que o Brasil Esteve Aqui, em admirável iniciativa da Pródigo Filmes, acaba de ser relançado em 4k na plataforma Mubi. Revê-lo, agora, oferece interessantes efeitos. Há a surpresa da qualidade de imagem, recuperada, limpa, bagunçado as percepções – mas era assim tão nítido, há 22 anos? E há, sobretudo, a nostalgia, digamos assim, a que se referem Ortiz e Dornelas. É aventura que precisaria ser filmada, e agora revisitada, sobretudo no mundo de Donald Trump, e em torno do desafio deste 19 de junho.

Mas e o futebol, como foi naquela 2004? A seleção goleou por 6 x 0, com direito a um dos gols mais bonitos da carreira de Ronaldinho Gaúcho, e recomenda-se ver O Dia em Que o Brasil Esteve Aqui, que seja apenas para olhar o mago com a bola nos pés. Foi um baile. No dia seguinte, a equipe de produção esteve no minúsculo quarto do goleiro Gabard Fénélon, vazado pela amarelinha. Orgulhoso, ele dizia estar feliz por poder contar aos filhos e netos que levara gols daqueles campeões, especialmente o de Ronaldinho. Houve festa na chegada e festa na saída, e pouco importava o resultado – em movimento que não deve se repetir logo mais, porque os haitianos já não são tão fracos, muitos jogam em times medianos da Europa e América do Norte. De qualquer modo, haverá como que uma reedição do “Jogo da Paz”, mais profissional, mais sério, mas também menos bonito.

Ainda hoje me lembro de uma situação, no trabalho com O Dia em Que o Brasil Esteve Aqui, que ajuda a traduzir o que houve – a miséria sem futuro, por uma jornada esmaecida pela promessa. Assim que fui convocado, sim, convocado, por Dornelas, comecei a imaginar caminhos. Entrei em contato, por e-mail e depois, telefone, com o centroavante Emmanuel Sanon, que vivia em Miami. Ele foi o autor do gol solitário do Haiti contra a Itália, em 1974, na derrota por virada por 4 a 1. É ainda hoje um herói. Imaginei que Sanon fosse ao jogo promovido por Lula e a ONU. Disse que sim, iria, e que falaria conosco, com prazer – mas em troca de 5 000 dólares, que não foram aceitos. Mercenário? Não, apenas alguém cobrando por sua história. Chegando a Porto Príncipe, no setor destinado a autoridades e imprensa, não demorou para localizar Sanon, dando bobeira. Poderíamos tê-lo entrevistado, mas não seria correto com o homem que pedira cachê, talvez por necessidade, ou por saber ser chance única.

Vale a pena tentar ver O Dia em Que o Brasil Esteve Aqui ainda antes da partida – ou depois, é claro, de modo a compor um pacote para lá de interessante em torno de um jogo que tende a ser tranquilo para o Brasil que já não é mais aquele.

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