A hipocrisia de PT e PL ao defender a criação da CPMI do Master
Em um intervalo de poucas semanas, o escândalo do Banco Master, epicentro da maior pirâmide financeira da história do país, erigida sobre a base de relações políticas obscuras entre agentes públicos e privados, enredou o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, e o líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
O primeiro passou pelo constrangimento de ver divulgadas mensagens suas para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro pedindo, em tom fraterno, dezenas de milhões de dólares, supostamente para a cinebiografia de seu pai Jair Bolsonaro. O segundo foi alvo, na última quinta-feira, de uma operação da Polícia Federal, sob a acusação de ter recebido propina para utilizar seu mandato em benefício do Master.
Ambos refutam integralmente qualquer suspeita de ilegalidade. E não é só isso que têm em comum. Antes de serem atingidos pelo escândalo, tanto um como o outro haviam garantido a aliados, em conversas reservadas, que, apesar de indícios anteriores de menor repercussão sobre suas relações com Vorcaro e companhia, não havia nada com que se preocupar. Pelo visto, havia.
E, em meio ao estrago político de ver líderes seus arrastados para o noticiário policial a poucos meses de uma eleição presidencial, tanto o PL como o PT dobraram a aposta no ataque como melhor defesa, reforçando os discursos pela instalação imediata de uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) para o próprio Congresso investigar o caso Master e suas ramificações políticas.
Outra característica compartilhada entre os dois extremos da polarização que domina a política brasileira desde 2018 é que cada lado celebrou efusivamente o momento em que o outro teve o nome associado à megafraude do Master.
Não esquecendo, é claro, que, talvez à exceção de deputados de baixo clero que fariam qualquer coisa para ter a visibilidade de uma CPMI, na esperança de reter um fio de esperança na reeleição, mesmo que isso prejudicasse seus respectivos candidatos à Presidência, nenhum líder de PL e PT em sã consciência vê com bons olhos a instalação de uma comissão de inquérito a esta altura, faltando menos de quatro meses para o primeiro turno do pleito.
Quem tampouco quer dar vida à investigação parlamentar é o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), detentor solo da prerrogativa de instalar CPIs mistas ou, como no caso em tela, deixá-las muito bem guardadas na gaveta. Também alvo de suspeitas — como mostrou reportagem de VEJA, uma das propostas de delação do ex-banqueiro do Master Daniel Vorcaro citou um suposto pagamento de 30 milhões de dólares ao amapaense em uma conta no exterior — , ele tem feito repetidos desabafos públicos, tanto sobre as informações que poderiam atingi-lo em cheio quanto sobre o clima político do país.
“Hoje, o que tem valido é a presunção da culpa, e não presunção da inocência”, criticou Alcolumbre, ao falar com jornalistas sobre a operação contra Jaques Wagner. O chefe do Poder Legislativo prestou solidariedade ao colega, com quem viveu às turras nos últimos meses, e pediu que se respeite o imperativo constitucional de que ninguém pode ser considerado culpado de um crime até que sofra condenação com trânsito em julgado.