A IA brasileira que foi parar no livro dos recordes
De um lado, papel e caneta. Do outro, uma IA. Essas tecnologias tão distintas se encontraram – não para conflito, mas para colaboração – no mais novo recorde obtido pelo Brasil no Guinness, publicação nascida no Reino Unido, conhecida por reunir todo tipo de feito assombroso.
Nesse caso, o feito foi corrigir 461.100 redações manuscritas em um mês, usando inteligência artificial. Quem pleiteou a criação da categoria foi a edtech Estudo Play, que atua com redes públicas de ensino. A empresa desenvolveu uma IA própria que usa reconhecimento ótico de caracteres para converter texto manuscrito em dados digitais e corrigir cada redação em cerca de um minuto, seguindo os critérios das cinco competências do Enem.
O recorde nasceu dentro do Projeto Enem MG, em Minas Gerais, com estudantes do ensino médio da rede estadual. Segundo a empresa, as redações foram feitas em um mesmo simulado, com o mesmo tema, e enviadas à plataforma depois de serem fotografadas.
Dos cerca de 750 mil alunos, 565 mil redações chegaram à plataforma, e 461.100 atingiram o mínimo de caracteres exigido para a correção, que foi o recorde certificado. Os participantes escreveram à mão e, num momento posterior, fotos dos textos foram analisadas pela IA, que consegue lidar até mesmo com escritas bem difíceis de ler.
Embora seja muito interessante e renda mídia conseguir destaque no Guinness (olha eu aqui falando do assunto, afinal de contas), considero mais interessante a forma como a IA que corrige redações pode aprimorar o aprendizado dos alunos.
Aliás, não só nessa disciplina, como em todas as outras, porque o simulado que a empresa organiza não é apenas de redação. “A partir das correções, a gente cria uma trilha personalizada de ensino para cada estudante, dizendo qual é a deficiência, onde ele precisa melhorar e quais as vantagens disso”, afirma o CEO da Estudo Play, Felipe Piancó. Os insights fornecem subsídios também para os professores. “Cada educador passa a conhecer o aluno profundamente.”
Quer dizer, é uma aplicação de IA menos vistosa do que os vídeos hiperrealistas e os chatbots que conversam como gente, mas talvez mais relevante para a vida cotidiana de milhares de pessoas.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos