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A incrível história que encaminhou o gosto pelo futebol no Japão

26 de Junho de 2026, 03:33 1 visualizações
A incrível história que encaminhou o gosto pelo futebol no Japão

Canta-se em verso e prosa a influência de Zico no crescimento do futebol japonês – em 1991, o camisa 10 da Gávea foi contratado por uma equipe atrelada a uma empresa, a Sumitomo Metal, que depois seria rebatizada como Kashima Antlers. A J-League decolou, virou excelente negócio. As equipes cresceram, ao vencer títulos asiáticos. E Zico, o Samurai de Quintino, para usar o nome do excelente documentário de João Wainer, chegou a treinar o Japão na Copa do Mundo de 2006 – os nipônicos perderam de 4 a 1, na fase de grupos. Enfim, Zico está na história recente do esporte no Oriente. Antes dele, contudo, houve o empurrão de uma outra figura, também de ligações com o Brasil.

Em 1981, o futebol era mera curiosidade no Japão, uma atividade distante de gente esquisita do Ocidente. O país vibrava com o beisebol, as artes marciais e sumo — tradições enraizadas que pareciam intocáveis. Mas naquele ano, um desenhista de mangá de apenas 25 anos, Yoichi Takahashi, publicou na revista semanal Shōnen Jump o primeiro capítulo de uma história sobre um menino japonês que sonhava ser o melhor jogador do mundo. Aqueles traços desencadearam uma revolução. O Captain Tsubasa — conhecido no Brasil como Super Campeões — não foi apenas um mangá de sucesso. Representou uma fagulha, atalho para que a meninada japonesa começasse a conhecer as regras, os craques etc.

Na história, um garoto de 11 anos, Tsubasa Ozora – batizado no Brasil como Oliver Tsubasa – enxergava o gramado e a bola como extensão de sim mesmo. A narrativa, simples e universal, com pitadas de amizade, rivalidade, superação e sonhos serviu de alimento para o fenômeno. E então, pela primeira vez, crianças japonesas tinham um herói do futebol que falava a língua delas.

O impacto foi imediato. Em menos de dois anos desde a publicação do mangá, em 1983, o anime estreou na televisão, amplificando ainda mais o alcance da obra. Mais de seis milhões de crianças e adolescentes acompanhavam as histórias semanalmente. Dizia-se, à época, que havia mais crianças jogando futebol nas escolas japonesas do que beisebol.

A geração que cresceu lendo Captain Tsubasa nos anos 1980 foi a mesma que fundou o futebol profissional japonês. Em 1992, o Japão criou a J-League. Em 1998, a seleção disputou sua primeira Copa do Mundo, na França. Em 2002, sediou a primeira Copa fora do eixo América-Europa, ao lado da Coreia do Sul. Jogadores como Hidetoshi Nakata, Shinji Kagawa, Shinji Okazaki e Keisuke Honda declararam abertamente ter crescido lendo o mangá ou assistindo ao anime. O próprio Takahashi passou a desenhar os personagens vestindo os uniformes reais dos novos times profissionais quando a J-League foi criada, estreitando ainda mais a ligação entre a ficção e a realidade. Hoje, o futebol é o segundo esporte mais popular do Japão, e especialistas apontam que, entre as crianças, já disputa em pé de igualdade com o beisebol.

O alcance da obra foi além das fronteiras japonesas. Craques como Lionel Messi, Zinedine Zidane, Andrés Iniesta, Kylian Mbappé e Fernando Torres já mencionaram a série como influência em suas trajetórias, no desenho ou videogame. Treinavam e voltavam para casa, sonhando com as tiras que liam. Sergio Agüero chegou a usar caneleiras com estampa do Capitão Tsubasa em partidas decisivas. A revista com o querido personagem chegou a mais de 90 milhões de cópias em circulação no mundo até 2023, tornando-se um dos mangás mais vendidos de todos os tempos.

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Do Morumbi para Tóquio

Mas há uma história dentro da história — e ela tem muito de Brasil. O criador Yoichi Takahashi era um apaixonado pelo futebol brasileiro. Na época em que criou o mangá, o Brasil preparava-se para a Copa de 1982 – de Zico, claro, Sócrates, Falcão e cia. Desde as primeiras páginas, das primeiras aventuras, o Brasil aparece como o grande horizonte de Tsubasa. O mentor do protagonista é Roberto Hongo (chamado no Brasil de Roberto Maravilha), um ex-craque brasileiro que vai ao Japão tratar de uma lesão nos olhos e acaba se tornando treinador e figura paterna do menino. É ele quem ensina a Tsubasa “os macetes que só o jeitinho brasileiro conhece”. A relação entre professor brasileiro e pupilo japonês é o coração afetivo da série.

Capa de mangá Captain Tsubasa Vol 2, com Tsubasa Ozora sorrindo, vestindo uniforme branco, vermelho e preto do São Paulo F.C., segurando uma bola de futebol Molten
O personagem com a camisa do Tricolor paulista: na ficção, os “Brancos”, adversários dos “Domingos”Captain Tsubasa - Supercampeoes/Reprodução

Na saga adulta da franquia, Tsubasa vai jogar no Brasil — num clube chamado “Brancos”, representação velada do São Paulo Futebol Clube —, disputa o Campeonato Brasileiro e tem como rival um time chamado “Domingos”, que na ficção corresponde ao Flamengo. Por trás da paixão de Takahashi pelo Brasil, existe um fato real quase inacreditável. Em novembro de 1974, Pelé visitou a cidade de Shizuoka, no Japão, para lançar uma escolinha de futebol. Entre os garotos que jogavam ali, um chamou a atenção do Rei: Musashi Mizushima, 10 anos, filho de uma família simples. Pelé se impressionou com o talento do menino e convenceu os pais a enviá-lo ao Brasil, onde teria condições de se tornar um jogador de verdade.

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Em abril de 1975, com 11 anos, Musashi desembarcou em Santos com a irmã e uma enorme responsabilidade nos ombros: ser o primeiro japonês a jogar futebol no Brasil. Pelé queria levá-lo ao Santos, mas o clube não tinha equipe na faixa etária do garoto. Após intermediação, Musashi foi parar no São Paulo, onde foi inscrito em uma das primeiras turmas da escolinha do Morumbi. Passou uma semana de testes, foi aprovado, e iniciou ali uma trajetória de mais de uma década no futebol brasileiro.

Um homem japonês de óculos e camisa branca com gravata preta sorri para a câmera, ladeado por duas estátuas de jogadores de futebol de anime em uniformes azuis e brancos, com os números 10 e 11, em pose de chute
Yoishi Takahashi, o desenhista e criador da ideia: apreço especial pelas partidas do Brasil em CopasK. Y. Cheng/Getty Images

Mizushima chegou a ser capitão nas categorias de base do Tricolor. Atuou por empréstimo em São Bento e Portuguesa, e chegou ao elenco profissional do São Paulo — mas disputou apenas uma partida pelo time principal, em 1985, num amistoso em Bragança Paulista. Passou ainda brevemente pelo Santos e encerrou sua carreira brasileira em 1988, retornando ao Japão. O bacana: o autor do mangá, Yoichi Takahashi, revelaria depois que Mizushima foi a base de Oliver Tsubasa.

Há, portanto, íntima ligação entre o Brasil e o Japão no futebol, na realidade e na ficção. Na ficção, aliás, na final de um campeonato mundial juvenil da série, deu Japão, 3 a 2. A ver na segunda-feira, 29, em Houston. E que ninguém se surpreenda se, ao final da partida, os torcedores do Japão erguerem um bandeirão com o desenho de Tsubasa. Foi o que fizeram em 2018, depois de serem eliminados pela Bélgica.

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