A partida mais importante da primeira fase da Copa do Mundo
Há um jogo na Copa do Mundo cercado por intensa ansiedade antes de a bola começar a rola – e não se trata de preocupação alguma com o futebol. Quiseram os deuses do futebol, e os semideuses da Fifa, digamos assim, com o apoio do aleatório e o sobrenatural de almeida inventado por Nelson Rodrigues, que a partida entre Irã e Egito, no dia 26, sexta-feira, coincidisse com o ambiente alegre, inteligente e necessário da Parada LGBTQIA+ marcada para o dia seguinte, um sábado.
Pois bem. A Federação Iraniana de Futebol quer que a Fifa impeça quaisquer “cerimônias ou atividades promocionais” em apoio à comunidade gay. Contudo, a federação internacional, em gesto de evidente respeito às diversidades, faz a coisa certa, e promove o evento. Haverá, no Lumen Field, o estádio da partida, uma apresentação para a imprensa da passeata. Os líderes do movimento, por ironia, batizaram o embate de “Jogo do Orgulho”.
É rolo interessante demais para ser desdenhado, por ocorrer em meio aos ataques dos Estados Unidos contra o Irã, o vai-não-vai do cessar fogo. Por ora, a Fifa tende a ganhar a queda de braço. Está decidido: não haverá restrição alguma à exibição de bandeiras do arco-íris em todas as partidas da Copa, e é mais do que provável que elas tremulem no Lumen Field em meio a torcedores mais tradicionalistas, ao redor das equipes perfiladas e incomodadas. Não é, enfim, apenas uma partida de futebol. Gianni Infantino, o presidente da Fifa, tentou minimizar a relevância da expressão “Jogo do Orgulho” em entrevista a um jornal suíço, mas foi apenas protocolar. “Devo esclarecer que não haverá um Pride Match na Copa do Mundo. Haverá uma partida da Copa do Mundo da FIFA em Seattle e, no mesmo dia, eventos organizados por entidades externas acontecerão na cidade. Mas isso não tem nada a ver com a partida em si.”
Em um comunicado ao site The Athletic na noite de quarta-feira, 24, a Federação Iraniana de Futebol não mencionou a comunidade LGBTQ+ pelo nome, referindo-se a ela simplesmente como “este movimento”. Um porta-voz da seleção iraniana disse o seguinte: “A Federação de Futebol da República Islâmica do Irã leva este assunto a sério e comunicou claramente sua posição à FIFA. O Irã e o Egito são dois países muçulmanos com profundas semelhanças culturais e religiosas, e as opiniões expressas por ambas as federações refletem os valores e crenças compartilhados pelos povos de ambos os países. Nossa posição é que nenhuma cerimônia ou atividade promocional associada a esse movimento deve estar presente dentro do estádio ou como parte do ambiente da partida. Essa posição foi comunicada à FIFA pelos canais apropriados.”
A posição preconceituosa, travestida de cultura, vai dar em nada. A Fifa já deixou claro: considera esta Copa do Mundo um “evento inclusivo”. No Irã, de acordo com a Sharia, a lei islâmica, há a possibilidade de pena de morte para a homossexualidade. As execuções podem ser aplicadas de diversas formas, como enforcamento ou apedrejamento. Pessoas acusadas de atos homossexuais enfrentam detenções arbitrárias, chibatadas e períodos de isolamento. No Egito, a homossexualidade não é explicitamente mencionada como crime, mas as autoridades perseguem e prendem pessoas LGBTQIA+ sob acusações de libertinagem. As penas podem chegar a até três anos de prisão, além de multas e exames forenses forçados.
O bom exemplo da Alemanha em 2022
A Fifa penou, errou muito, até corrigir o caminho. A virada ocorreu depois de um episódio na Copa do Mundo do Catar, em 2022. Os jogadores da Alemanha se manifestaram, há quatro anos, contra as ameaças de sanção da Fifa ao uso da braçadeira “One Love”, em favor da inclusão e contra a discriminação à causa LGBTQIAP+. Antes mesmo de a bola rolar para a estreia do país diante do Japão, no estádio Internacional Khalifa, os 11 atletas titulares posaram para a foto oficial tapando as bocas. O goleiro e capitão Manuel Neuer ainda tentou esconder a braçadeira disponibilizada pela entidade. Logo depois do início da partida, a Federação Alemã de Futebol se pronunciou, por meio de nota oficial, explicando os motivos para a decisão. A entidade responsável pelo futebol do país argumentou que “não era uma declaração política” e que “direitos humanos não são negociáveis”. E mais: “Queríamos usar nossa braçadeira de capitão para nos posicionar sobre os valores que defendemos na seleção da Alemanha: diversidade e respeito mútuo. (…) Negar a nós a braçadeira é o mesmo que nos negar a voz. Nós defendemos a nossa posição”.