Acordo com Irã é bom ou ruim? Para Trump, benefício pode ser passageiro
Mesmo pelos padrões frenéticos de Donald Trump, ontem foi um dos dias mais surreais da história recente. Lutadores do UFC esmurram-se no octógono montado no jardim da Casa Branca, uma águia adestrada voou sobre o público e o presidente, comemorando seus 80 anos, deu uma bronca desbocada em Benjamin Netanyahu. “Que ***** você está fazendo?”, perguntou ao primeiro-ministro israelense, responsável pelos derradeiros bombardeios contra o Hezbollah no Líbano.
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Derradeiros porque os ataques serão suspensos, mesmo sob intensa oposição de Israel, como parte do acordo com o Irã que Trump queria fazer de qualquer maneira, tendo entendido muito bem como a oposição da opinião pública americana à guerra e os efeitos econômicos do bloqueio do Estreito de Ormuz estavam afetando seriamente seus índices de aprovação.
O acordo ainda é provisório e tem um prazo de 60 dias para questões mais substanciais, acima de tudo a desativação do urânio enriquecido, “soterrado embaixo de montanhas”. Mas o principal, a curto prazo, tem efeito imediato: a abertura do estreito, com o consequente levantamento das pressões sobre o preço do petróleo. É uma boa notícia para todas as economias do mundo, resumida pela frase triunfalista de Trump: “Deixem o petróleo fluir!”.
A longo prazo, o mais importante, a garantia de que o Irã não fará armas nucleares, é sustentável? Não é possível bater o martelo categoricamente.
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‘UMA CATÁSTROFE’
Há dúvidas sobre o modo como será resgatado, desativado ou diluído o urânio enriquecido acumulado pelo regime iraniano com fins obviamente bélicos. E como reagirão as forças mais radicais, no Irã, que tentaram várias maneiras de sabotar o acordo, chegando ao ponto de insuflar protestos em que manifestantes chamaram o principal negociador iraniano, o chanceler Abbas Araghchi, de “infiltrado”, uma insinuação nada sutil de que colaborou com o inimigo.
A palavra conectada com traição também foi usada, sob sigilo, por fontes do governo israelense em relação a Trump. A sensação dominante em Israel é que o país saiu perdendo e termina o processo gravemente enfraquecido. Quem o protegerá do Hezbollah? Netanyahu, descrito por Trump como “um cara muito difícil”, não tem condições políticas de aceitar um único drone vindo do Líbano sem reagir. ”O entendimento entre o Irã e os Estados Unidos é oco, desprovido de substância e completamente descolado das questões centrais”, escreveu Jacob Nagel, ex-assessor de Segurança Nacional de Netanyahu. “Alguns, como eu, o descreveriam como uma catástrofe”.
O que é ruim para Israel pode ser bom para os Estados Unidos? Os próximos desdobramentos mostrarão se isso é verdade e se o acordo é realmente abrangente e aplicável.
Praticamente toda a nova etapa, até a concretização final de um acordo definitivo, dependerá dos Guardas da Revolução Islâmica e de seu comandante, Ahmad Vahidi. Como Trump gosta de dizer, são eles que dão as cartas. Alguns acreditam que até para o líder supremo, Mojtaba Khamenei, ainda não visto em público, provavelmente porque foi ferido no mesmo bombardeio que matou seu pai e antecessor. “O sagrado ideal da libertação de Jerusalém e da vingança pelo sangue de Ali Khamenei jamais será esquecido”, ameaçou o chefe do Estado-Maior, general Ali Abdullahi.
Dizer uma coisa e fazer outra não é sem precedentes, mas também deve ser levado em conta que toda a liderança do regime iraniano sempre disse algo muito parecido. Trump tem que ficar de olhos bem abertos para que os benefícios do acordo sejam permanentes e não uma ilusão transitória.