Agricultores dos EUA usam dados do governo Bolsonaro para defender tarifa sobre carne brasileira
As acusações de que a carne brasileira estaria ligada a corrupção, trabalho forçado e desmatamento marcaram o momento de maior tensão da audiência pública promovida pelo governo dos Estados Unidos para discutir as tarifas sobre produtos brasileiros. A informação foi dita pelo professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Gustavo Pessoa, em entrevista a Veja Negócios nesta terça-feira, 7.
Pessoa, que participou do primeiro dia de debates em Washington, afirmou que apenas representantes da pecuária norte-americana defenderam abertamente a ampliação das sanções contra o Brasil, utilizando argumentos ambientais e trabalhistas para justificar novas restrições.
“Eles fizeram uma argumentação muito incisiva e pesada, dizendo que a importação de carne brasileira pelos Estados Unidos era importação de desmatamento, trabalho forçado e corrupção”, afirmou Pessoa em entrevista à VEJA Negócios.
De acordo com o professor, os representantes do setor afirmaram que cerca de 70% do mercado americano de carne bovina in natura importada é abastecido pelo Brasil. Pessoa chamou atenção para o uso de dados ambientais durante a apresentação.
Segundo ele, os produtores citaram um forte aumento do desmatamento no Brasil, utilizando um recorte estatístico que se encerrava em 2022. “Esse era o último ano do mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro”, afirmou. “Todo mundo estava utilizando dados mais recentes, de 2025 e 2026, e esse recorte acabou chamando a atenção”, disse Pessoa.
Apesar do discurso contundente dos pecuaristas, o professor afirma que o restante das audiências manteve um tom técnico e foi dominado por representantes de empresas e associações, tanto brasileiras quanto americanas, que buscavam demonstrar os prejuízos econômicos das tarifas para os próprios Estados Unidos.
Mel e café lideram pedidos de exceção
Segundo Pessoa, um dos setores mais ativos foi o de produtores e importadores de mel orgânico. Empresas americanas defenderam que o produto brasileiro não possui substitutos próximos no mercado local e argumentaram que a produção doméstica não conseguiria suprir a demanda, mesmo com incentivos.
“O interesse deles era sempre saber como os produtores americanos seriam afetados. Em praticamente todas as apresentações, os próprios participantes americanos mostravam que não haveria substituição automática da oferta e que o custo acabaria sendo repassado ao consumidor local”, afirmou.
O café solúvel também apareceu entre os produtos com maior chance de obter exceções às tarifas, justamente pela relevância para a cadeia de abastecimento dos Estados Unidos.

Na avaliação do professor, os argumentos apresentados por esses setores foram consistentes e demonstraram que, em alguns casos, a manutenção das tarifas contraria interesses econômicos americanos.
Decisão final será política
Embora tenha considerado as audiências predominantemente técnicas, Pessoa acredita que a decisão final sobre a manutenção ou flexibilização das tarifas dependerá muito mais de fatores políticos do que das manifestações apresentadas durante os debates.
Na avaliação dele, técnicos do Departamento de Comércio, do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), do Tesouro e de outros órgãos demonstraram interesse em reunir dados e argumentos para subsidiar a decisão final, solicitando inclusive documentação adicional aos participantes.
“A impressão é que existe um esforço do corpo técnico do USTR para produzir uma análise bastante robusta para que o tarifaço não se concretize. No entanto, todo mundo entende que a decisão final será política”, conclui Gustavo Pessoa.