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Alerta de misantropia: a bizarra postura de um treinador francês

22 de Junho de 2026, 04:50 0 visualizações
Alerta de misantropia: a bizarra postura de um treinador francês

Só mesmo quem está maratonando a Copa do Mundo como se não houvesse amanhã é que ficou alheio a um bizarro episódio da semana passada. Uma invasão de hackers no sistema de alertas da Defesa Civil fez disparar barulhentos avisos na madrugada de sexta-feira, 19, para sábado, 20. O ruído vinha acompanhado de uma palavra: “misantropia”. Como assim? Misantropia, segundo a definição do dicionário Houaiss, é o “ódio pela humanidade, falta de sociabilidade, melancolia, depressão, tristeza”. É inevitável, para quem gosta de literatura e teatro, lembrar de um clássico do francês Molière, levada ao palco, pela primeira vez em 1666, há exatos 360 anos. O personagem central da comédia, Alceste, rejeita todas as convenções, que considera hipócritas e covardes. Pessimista, incomodado, ele se afasta de tudo e de todos – à exceção da coquete Célimène, que mexe com a cabeça e as certezas do sujeito.

Molière,  o francês bem tratado, os versos alexandrinos – “só encontro, em toda parte, vil bajulação, injustiça, mentira, calúnia e traição; eu não aguento mais, desespero, e meu plano é cortar relações com o gênero humano”. Como a Copa do Mundo é como um ímã para as dores e amores do mundo, muito mais do que apenas uma coleção de partidas de futebol, é inevitável lembrar que hoje, 22 de junho, a França enfrenta o Iraque. A França de Mbappé e Olise, favorita ao título, um timaço. Campeões em 2018, vice-campeões em 2022, os bleus entraram definitivamente no andar de cima da bola. Venceram também em 1998, ao derrotar o Brasil de Ronaldo na final, por 3 a 0. Nem sempre, contudo, foi possível entoar com orgulho o allons enfants. Há pouco tempo, em 2010, a seleção francesa viveu talvez o mais terrível capítulo de sua história – e no centro da desventura estava o treinador Raymond Domenech, que mais de uma vez foi tratado como misantropo (mas não ingênuo, sonhador e do bem como Alceste, ao contrário). Ele mesmo se denominou misantropo, como se a sociedade não lhe interessasse, vista da torre de marfim.

Domenech, que chegou a convocar e cortar atletas depois de consultar o mapa astral de seus comandados, foi pivô de um escândalo, o motim liderado pelos jogadores e solidariedade ao atacante Nicolas Anelka, mandado de volta para casa depois de discutir com o técnico no intervalo do embate contra o México. Em apoio a Anelka, todo o elenco se recusou a treinar depois da derrota por 2 a 0. Escreveram um manifesto que, de modo insólito seria lido pelo próprio Domenech. O jornal L’Équipe chegou a estampar em manchete a frase que Anelka teria dito ao chefe, mando ele tomar naquele lugar. Foi uma vergonha, a ponto de até o presidente Nicolas Sarkozy ter feito críticas públicas à postura da equipe e o comandante. Foi um fiasco – a derrota para o México, empate com Uruguai e derrota para a África do Sul – tema do documentário A Greve da Seleção da França, no Netflix.

A tal misantropia, ao menos no caso de Domenech, arrogante e egoísta, não funciona quando é usada como pretexto para fugir dos problemas. A produção da Netflix é obrigatória para quem quer conhecer aquele capítulo e entender os estragos promovidos e alimentados por Domenech, que bem poderia ser inspiração para Molière. O atual treinador, Didier Deschamps, também é uma figura e tanto – mas de outro quilate. Tratado por muitos como alguém sem vergonha de expor platitudes, quase alheio ao que está ao seu redor, engraçado e atrapalhado no uso das palavras, Deschamps é gato escaldado – ele foi ungido ao cargo em 2012, logo depois de Laurent Blanc, que substituiu Domenech. Começou a caminhada, portanto, com aquele rolo todo muito fresco – e dele tirou lições, e a principal delas é não comprar briga com os jogadores. Longevo, é tratado com a deferência destinada aos vencedores. O site da Fifa faz poesia com Deschamps: “Existem os nostálgicos, que adoram olhar para o passado, e os estoicos, para quem apenas o presente importa. Didier Deschamps faz parte da segunda categoria”.

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