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As conexões do Brasil com Cabo Verde: “Nu sta djunto, Kabu Verdi”

27 de Junho de 2026, 04:02 0 visualizações
As conexões do Brasil com Cabo Verde: “Nu sta djunto, Kabu Verdi”

A história mais bonita da Copa do Mundo até aqui – e talvez nem mesmo a trajetória do campeão possa superá-la – é a passagem da seleção de Cabo Verde para a disputa da fase de 16 avos, o primeiro mata-mata, contra a Argentina. Os africanos ocupam a posição 67 no ranking da Fifa; os argentinos, a segunda. Não é futebol, exatamente, e por isso pouco importa o previsível resultado em Miami, no próximo dia 3 de julho. Há outro modo de ver a partida, como se fosse o chamado para uma luta de boxe desigual: Vozinha contra Messi. A ver no que dará, mas, insista-se, pouco importa. Os “tubarões azuis” cabo-verdianos empataram com a Espanha em 0 a 0; em 2 a 2 com o Uruguai e em 0 a 0 com a Arábia Saudita. Três empates, dois gols. É pouca coisa, mas já foi avisado não se tratar de futebol. Há um herói, digamos assim, o Vozinha neto da Maria, de batismo Josimar, em homenagem ao lateral brasileiro do Botafogo e da seleção de 1986, que também explodiu do nada, com dois gols improváveis, no México. Virou figura internacional, campeão de seguidores no Instagram, ao saltar de sabe-se quantas migalhas para milhões de seguidores – em parte, com o empenho dos torcedores brasileiros que, por simpatia, adotaram a turma do arquipélago de apenas 500 000 cidadãos como o segundo time.

Há uma evidente conexão entre Brasil e Cabo Verde, e para entendê-la um bom caminho, mais para poesia do que para prosa, é beber de Fernando Pessoa, o maior dos poetas da Flor do Lácio, ao lado de Carlos Drummond de Andrade: “Minha pátria é minha língua”. É gostoso, como ouvi de gente que veio da África para ver a Copa, e de outros que moram na diáspora americana, ouvir em bom português a força de uma paixão. “Estamos emocionados com o Cabo Verde, um país tão pequeno fazendo coisas tão grandes”, disse Maria – Maria como a vó do Vozinha –, mãe de um dos membros da delegação hospedada em Tampa, na Flórida, que esteve em Miami para acompanhar o jogo contra o Uruguai.

Uma outra ligação, triste e trágica, remete ao século XVI. Por sua posição estratégica entre a África e a América, Cabo Verde se consolidou como um dos principais centros do tráfico transatlântico de escravizados, atividade que perdurou por mais de 300 anos. Estima-se que cerca de 3 mil escravizados vindos do continente africano er vendidos anualmente em Cabo Verde com destino à Europa e às Américas, inclusive o Brasil.

E enfim, houve Cesária Évora, a “diva dos pés descalços”, a rainha do gênero morna, de sucesso internacional, sobretudo no Brasil, cantando em crioulo. Ouvi-la é a melhor trilha para a travessia da seleção azul e branco em 2026: “Quem mostra’ bo ess caminho longe?/Quem mostra’ bo ess caminho longe? / Ess caminho pa Sã Tomé/ Quem mostra’ bo ess caminho longe?/ Quem mostra’ bo ess caminho longe?/ Ess caminho pa Sã Tomé/ Sodade, sodade, sodade.” Sempre existiu, é natural, um interesse da lá para cá. Vozinha já revelou que sua vó Maria adorava Roberto Carlos, o cantor, não o lateral-esquerdo. Uma geração inteira cresceu vendo a novela Escrava Isaura, nos anos 1970.

Goleiro de pele escura, barba e cabelo crespo, vestindo camisa amarela e luvas brancas, acena com a mão direita para a torcida em um estádio de futebol lotado
O goleiro Vozinha: explosão de seguidores no Instagram, em fenômeno internacionalPatrick Smith - FIFA/FIFA/Getty Images
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Cabo Verde, salvo a maior de todas as zebras, deve terminar a viagem contra os argentinos. A delegação voltará para a ilha de São Vicente em recepção que nunca se viu. E durante décadas, talvez para sempre, sempre que alguém se debruçar nos grandes momentos do esporte, terá de lembrar do verão der 2026 nos Estados Unidos. Do crioulo cabo-verdiano, como divisa: “Nu sta djunto, Kabu Verdi”. Dá para entender, não dá? Porque nossa língua é nossa pátria. Estamos juntos – ou, “tamu junto”.

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Cesaria Evora: a diva dos pés descalços, a rainha do gênero morna: “Sodade, sodade”Divulgação/VEJA
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