Brasil teria perdido de 7×1 se tivesse parada para hidratação? Especialistas respondem
As críticas às paradas para a hidratação durante os jogos da Copa do Mundo vem ganhando novos capítulos, e os mais recentes deles foram os técnicos Marcelo Bielsa, do Uruguai, e Scaloni, da Argentina, que criticaram com veemencia essa inovação da Fifa. “Jogar quatro tempos em vez de dois altera a concepção e a cultura que foram construídas para interpretar o futebol. Essa mudança não acrescenta nada e tira muito”, afirmou o treinador uruguaio, em entrevista coletiva.
Na última semana, o zagueiro da Holanda, Van Dijk, também fez comentário parecido após o empate em 2×2 contra o Japão. Quem também deu opinião contrária à parada para hidratação foi Jurgen Klopp, ex-treinador do Liverpool e atual diretor global de futebol da Red Bull, foi mais enfático e disse que “O futebol virou refém de executivos em escritórios com ar-condicionado”, em declaração à emissora alemã ZDF. De acordo com o técnico alemão, o futebol perde a essência com essas paralisações. “Quando vi os jogadores parados durante uma pausa para o calor, enquanto os horários da televisão ditavam o ritmo do jogo, não pude deixar de me perguntar: a quem a Copa do Mundo realmente serve? Aos torcedores? Aos jogadores? Ou aos anunciantes?”, questionou.
Pela primeira vez na história da competição, a Fifa permitiu comerciais extras durante os intervalos, sendo liberada a exibição de propagandas comerciais. As pausas têm acontecido normalmente aos 22 minutos de cada tempo, e duram 3 minutos. Com o intervalo de 15 minutos entre os dois tempos, serão 3 pausas no total, que possibilitará chegar a 208 novos espaços publicitários. Estudos apontam que a Fifa pode faturar até US$ 500 milhões com a implementação oficial e inédita de comerciais durante as pausas para hidratação na Copa do Mundo.
As emissoras de televisão têm aproveitado essas oportunidades para captar os diálogos das comissões técnicas com os jogadores, por meio de microfones que ficam próximos aos bancos de reservas, e também de realizarem anúncios comerciais e publicitários durante esses espaços.
Com relação aos veículos de mídia, é verdade que os valores variam de acordo com os países e suas regiões, mas estima-se que um simples comercial de poucos segundos ou até um minuto na Copa do Mundo possam custar entre US$ 2 milhões e US$ 6 milhões. A título de comparação, um comercial de 30 segundos no Super Bowl 2026 custou cerca de US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 53 milhões), recorde entre os eventos esportivos em todo o mundo. Outra liberação por parte da Fifa é a permissão para que as emissoras exibam comerciais durante os “intervalos para hidratação”.
Essa novidade da Fifa em Copas já vinha acontecendo em outras ligas, com uma parada para a hidratação de 3 minutos na metade do 1º e do 2º tempo, independente da condição climática. Em fevereiro deste ano, a Conmebol instituiu a parada em todas as partidas, mas de acordo com o manual de clubes da Libertadores e da Sul-Americana, deve durar menos, de até 90 segundos.
Diante do comentário do técnico Marcelo Bielsa, uma pergunta que surgiu é: se a parada obrigatória para hidratação existisse na Copa do Mundo de 2014, o Brasil teria perdido de 7×1 para a Alemanha? Tudo porque, naquela ocasião, a seleção sofreu quatro gols em seis minutos justamente no período em que os jogos têm sido paralisados.
Do ponto de vista técnico, especialistas do mercado da bola deram suas opiniões:
“As paradas para hidratação impactam o jogo principalmente nos aspectos tático e emocional. Elas criam uma oportunidade para reorganizar a equipe, corrigir posicionamentos, ajustar estratégias e recuperar o controle emocional em momentos de pressão. Muitas vezes, quando uma equipe perde esse equilíbrio, isso se reflete tanto em erros técnicos quanto em dificuldades táticas. O que temos observado nesta Copa é que equipes que estavam em vantagem, seja no placar, no domínio tático ou emocional, em alguns casos perderam parte desse controle após as interrupções. Por isso, essas pausas podem ser positivas ou negativas, dependendo do contexto em que acontecem. No caso do Brasil em 2014, é possível considerar que uma parada poderia ter ajudado a equipe a se reorganizar e interromper momentaneamente a sensação de avalanche causada pela sequência de gols sofridos. Mas não há como afirmar que isso seria suficiente para mudar o resultado, porque o futebol é muito mais complexo do que um único fator isolado”, afirma Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy.
“Quando uma equipe sofre uma sequência de gols em poucos minutos, uma interrupção permite reorganizar o posicionamento, acalmar os atletas e ajustar questões emocionais e estratégicas. Ao mesmo tempo, o futebol sempre foi construído sobre a continuidade e o impacto psicológico dos momentos. Por isso, a discussão vai além da pausa: estamos falando de uma mudança que interfere diretamente no ritmo da partida e pode influenciar decisões técnicas, desempenho e até resultados históricos”, analisa Cláudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management.
“Essa paralização do jogo é excelente, e sua implementação, tardia. Já deveria ter se dado 40, talvez 50 anos atrás. Viabiliza mais transmissões, torna elas mais rentáveis para atletas, treinadores e principalmente para os mais humildes trabalhadores no estádio, que vendem bebidas, alimentos e souvenirs. Permite hoje maior interação do público presente, agrada as crianças, ajuda quem as leva, atrai mais jovens hoje afeitos aos jogos on-line e serviços de streaming de séries e musica, e no que diz respeito ao jogo, gera maior tranquilidade sobre como atletas lidam com um revés nos minutos iniciais. Além disso, a pausa é benéfica para a recuperação dos atletas, minimizando o desgaste acumulado, e privilegiando o talento, ao invés da resistência. O futebol não é apenas de quem joga, nem só de quem vai ao estádio. É de todos que querem se envolver de alguma forma, e tem que se ajustar até mesmo para quem ainda está por vir, que ainda nem nasceu. É importante que tenhamos olhos para o futuro. O passado, tem seu valor, enorme, e para isso existem os museus, as coleções, e nossas lembranças”, diz Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana, comandada pelo cantor Jay-Z, que gerencia a carreira de centenas de atletas.
“O histórico episódio dos 7 a 1 nos traz uma lição profunda sobre gestão de crise e controle de ritmo dentro do esporte de alto rendimento. Naquele momento de extrema instabilidade, o que o Brasil mais necessitava era de uma liderança em campo capaz de ditar o ritmo e estabilizar a partida. Se as pausas para hidratação, que hoje são ferramentas cruciais de preservação e estratégia, estivessem em jogo, o cenário poderia ter sido outro. Não afirmo que o resultado técnico seria a vitória da Seleção Brasileira, mas, estrategicamente, essas interrupções seriam fundamentais para quebrar a cadência ofensiva e o ímpeto da Alemanha. No esporte moderno, o tempo e a pausa são ativos valiosos, usá-los com inteligência certamente teria reduzido o impacto e evitado um placar tão elástico”, declara Alexandre Frota, CEO da FutPro Expo.
Já para especialistas da indústria e marketing esportivo, a parada durante os jogos é benéfica dentro e fora de campo, trazendo um momento para reidratação e também para que os treinadores conversem com seus jogadores, além, é claro, de emissoras e marcas capitalizarem com ativações e novas receitas.
“A pausa para hidratação acabou criando, de forma quase natural, um novo ativo dentro da dinâmica do jogo. Em um esporte com pouquíssimos intervalos formais, qualquer momento adicional de atenção concentrada ganha valor estratégico. Por isso, faz sentido que clubes, ligas e emissoras passem a olhar para essas paradas também sob a ótica de negócio, estruturando melhor as entregas comerciais e a exposição de marcas. O desafio é fazer isso com equilíbrio, aproveitando a oportunidade de monetização sem interferir na fluidez da partida nem descaracterizar a experiência esportiva”, aponta Bruno Brum, CMO da Agência End to End.
“O verão americano costuma impor temperaturas elevadas em várias sedes, então as pausas de hidratação fazem sentido do ponto de vista de bem-estar dos atletas. Ao mesmo tempo, é natural que a FIFA aproveite esse momento para criar novas oportunidades comerciais. A gestão atual tem um olhar muito pragmático sobre o negócio e entende que patrocinadores e emissoras buscam cada vez mais retorno e visibilidade dentro da transmissão”, acrescenta Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM.
“A chave para essa intervenção se tornar uma propriedade ainda mais interessante vai ser pensar em como expor as marcas sem prejudicar o conteúdo gerado, como os áudios das interações entre os times e suas comissões. Pode ser a oportunidade perfeita para que marcas entrem literalmente na conversa de forma contextualizada”, explica Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore no Brasil, com experiência em marketing esportivo, comunicação, inovação e ESG no mundo dos esportes.
“A movimentação da Fifa para permitir inserções comerciais durante as pausas de hidratação é mais um passo na ‘americanização’ da gestão de ativos do futebol. Historicamente, o esporte sempre enfrentou o desafio da fluidez: são 45 minutos de bola rolando com pouquíssimas janelas de respiro para as marcas. Ao institucionalizar essas pausas, a entidade não apenas cuida do bem-estar dos atletas, mas cria um inventário de atenção de altíssimo valor, similar aos timeouts da NBA. Sob a ótica do marketing, estamos transformando um ‘tempo morto’ em uma oportunidade para os patrocinadores conversarem com um público que está com os olhos fixos na tela, aguardando o reinício”, complementa Thales Rangel Mafia, Gerente de Marketing da Multimarcas Consórcios.
“A novidade em Copas do Mundo é boa para todos, para a saúde dos atletas que poderão se reidratar, para a comissão técnica que poderá fazer ajustes técnicos, bem como para os veículos de mídia e para a FIFA que poderão monetizar com o novo espaço publicitário”, encerra Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing esportivo.