Carla Madeira lança novo livro ‘Quando’ – e se firma como grande voz da literatura nacional
Há uma palavra estranha, quase clínica, no coração do novo romance da mineira Carla Madeira, 61 anos. “Engrama”, define a autora, é o “traço permanente deixado no tecido nervoso por um estímulo marcante”, uma experiência capaz de alterar para sempre a matéria senciente. É um vocábulo incomum, desconhecido para a maioria, mas basta ouvir a definição uma única vez para que qualquer leitor o compreenda de imediato. Cada pessoa tem os seus pontos de não retorno, os instantes que mudam tudo o que vem depois. É como se os humanos carregassem, em algum lugar do corpo, o registro exato do momento em que deixam de ser quem eram. Essas impressões permanentes, verdadeiras cicatrizes na existência, movimentam o livro Quando.
Depois do sucesso estrondoso de Tudo É Rio — de 2014, mas popularizado nas redes em 2021 —, que consagrou Carla como um dos grandes nomes da ficção brasileira contemporânea, criou-se naturalmente uma expectativa em torno de tudo o que a autora publicasse a seguir. Quando cumpre (talvez até supere) essa expectativa. Autores que emplacam um fenômeno de vendas costumam enfrentar o fantasma da repetição ou o esforço óbvio de fugir dela. Carla escapou dos dois riscos e fez, provavelmente, seu melhor romance até aqui, mais amadurecido em técnica e mais incisivo nas escolhas temáticas. Não é exagero dizer que a autora amadureceu junto de seus leitores, refinando seu lirismo, sua escrita e sem abrir mão de boas histórias que a consagraram.

A nova trama se passa no Brasil da década de 1980 e segue a família de Viridiana, mãe amorosa que, diante de um acontecimento trágico, toma uma decisão extrema e denuncia o próprio filho à polícia. Mais tarde, ele ficará desaparecido, deixando a família em estado de apreensão por décadas. Em torno da matriarca gravitam as filhas Margarida, Valquíria e o neto Francisco, de 5 anos. É o primeiro romance de Madeira com um pano de fundo político mais acentuado, com referências diretas à arbitrariedade da ditadura e à violência policial. Como a própria autora definiu em conversa com VEJA, trata-se de uma engrenagem de violência que vem de séculos e que aqui ganha contornos de uma instituição concreta.
Por outro lado, um tema recorrente de sua obra se mantém: os dilemas da maternidade. “Esse é um ponto central da minha literatura”, conta Carla, que perdeu a mãe enquanto escrevia o novo livro. “Ela é a matriz das minhas personagens — seja por afinidade, porque há algo que se parece com ela, seja por oposição, por serem absolutamente o contrário dela.” Suas mulheres costumam desafiar qualquer expectativa do leitor. Em Tudo É Rio, a protagonista permanece em um casamento mesmo após uma atitude imperdoável do marido. Em Véspera, seu livro mais elogiado até aqui — que vai virar série de TV na HBO, com Gabriel Leone, Bruna Marquezine e Camila Márdila —, uma mãe abandona o filho na rua durante uma crise de estresse e, arrependida, volta para buscá-lo, mas ele desapareceu.

Se as histórias são intrigantes, a prosa de Carla é também parte essencial de seu sucesso. Em Quando, a autora encontra o equilíbrio delicado entre forma e conteúdo. A linguagem, em boa parte da obra, é pouco convencional, cheia de achados sintáticos e de uma musicalidade própria, mas nunca hermética. A história é cativante, tecida com os fios de dramas que atravessam gerações inteiras, como o conflito entre pais e filhos, o machismo arraigado, a luta pela emancipação feminina, a homossexualidade, a homofobia e a traição conjugal. Um dos grandes achados do livro é o pequeno Francisco, o neto de Viridiana que absorve os dramas silenciosos da casa e os transforma em sua própria e comovente linguagem infantil. Para construí-lo, Madeira — que antes de virar escritora foi professora infantil — promoveu rodas de conversa com crianças de 8 a 12 anos. O resultado é um Francisco de vocabulário e fluência verbal surpreendentes.
Desse modo, Quando confirma o talento de Carla Madeira — sensível sem ser piegas, política sem ser panfletária e capaz de transformar a angústia da espera, esse sentimento tão antigo e universal, em renovada literatura. Com passagens violentíssimas ou de ternura extrema, o romance tem o mérito de deixar nos leitores um novo engrama.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008