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Celebrando 4 de Julho: a diferença entre crescer e chegar

02 de Julho de 2026, 13:13 0 visualizações
Celebrando 4 de Julho: a  diferença entre crescer e chegar

Enquanto os Estados Unidos celebram os 250 anos de independência, o Brasil atravessa uma nova crise de confiança institucional. O caso Banco Master, o maior escândalo financeiro da história recente do país, com perdas que já ultrapassam 50 bilhões de reais e ramificações em praticamente todos os centros de poder, a crise de crédito que atinge o agronegócio, a crescente presença chinesa na América do Sul e o retorno do protecionismo nas economias desenvolvidas parecem, à primeira vista, assuntos desconexos. Não são. Todos conduzem à mesma pergunta: por que algumas sociedades conseguem transformar potencial em prosperidade duradoura enquanto outras permanecem presas a um estado permanente de promessa?

Faço parte de uma geração que cresceu acreditando que o Brasil estava prestes a chegar. Chegar ao desenvolvimento, à estabilidade, à maturidade institucional e, finalmente, ao futuro que sempre parecia estar logo adiante. Ao longo de minha vida adulta, vi a hiperinflação desaparecer, a democracia consolidar-se, o agronegócio tornar-se uma potência global, milhões de brasileiros ascenderem economicamente e o país conquistar um protagonismo internacional que parecia improvável poucas décadas antes. Nada disso foi irrelevante. Pelo contrário. O Brasil tornou-se mais complexo, mais sofisticado e mais forte. Ainda assim, ao olhar para trás, permanece a sensação de que continuamos perseguindo um horizonte móvel. Crescemos muito. Mas nunca tivemos a convicção de ter chegado.

Poucos brasileiros tentaram explicar essa sensação com tanta elegância quanto o escritor gaúcho Vianna Moog. Em Bandeirantes e Pioneiros, livro publicado em 1954, ele sugeriu que Brasil e Estados Unidos haviam sido moldados por impulsos civilizatórios distintos. O pioneiro americano avançava para construir. O bandeirante brasileiro avançava para explorar. Um deixava para trás instituições, cidades e mercados. O outro, frequentemente, riqueza e movimento. A tese tornou-se um clássico porque oferecia uma explicação sedutora para trajetórias nacionais que pareciam divergir cada vez mais. E porque teve a coragem de afirmar que a diferença entre os dois países não era de circunstância, mas de propósito. Setenta anos depois, continua difícil encontrar uma interpretação do Brasil que tenha envelhecido tão bem.

A história, entretanto, tornou esse argumento ainda mais sofisticado. Se reescrevesse seu livro hoje, Vianna Moog provavelmente acrescentaria um novo capítulo. Não para negar sua tese, mas para reconhecer que, em algumas partes do Brasil, o velho bandeirante finalmente aprendeu a permanecer. O interior do Mato Grosso, onde cidades erguidas sobre um Cerrado antes considerado improdutivo transformaram-se em referências mundiais de produtividade, inovação e empreendedorismo, oferece a demonstração mais eloquente dessa mudança. Não foi apenas uma revolução agrícola. Foi uma revolução de longo prazo, construída por produtores, cooperativas, universidades, centros de pesquisa e instituições. Ali, a fronteira deixou de ser um lugar de passagem para tornar-se um projeto de permanência. O que a história ainda não resolveu foi a outra metade da tese de Moog: nossa dificuldade em construir instituições capazes de sobreviver aos interesses daqueles que temporariamente as ocupam.

É justamente por isso que episódios como o Banco Master produzem tamanho desconforto. Não porque revelem a falha de uma instituição específica, mas porque sugerem a persistência de um padrão. O caso expõe um ambiente em que governo, oposição, reguladores, sistema financeiro e parcelas do aparato judicial aparecem menos como forças independentes do que como engrenagens de uma mesma máquina. Não há um lado claramente inocente observando o problema de fora. O incômodo nasce da percepção de que o defeito não está em uma peça, mas na arquitetura. Essa é, em essência, a diferença entre crescer e chegar. Crescer depende de recursos, talento e oportunidades. Chegar exige instituições capazes de funcionar mesmo quando ocupadas por pessoas imperfeitas.

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A melhor tradição americana aprendeu essa lição cedo, e pagou um preço elevado por ela. Sua história está repleta de crises, escândalos financeiros, polarização e conflitos profundos. Ainda assim, a força duradoura dos Estados Unidos nunca esteve na qualidade circunstancial de seus líderes, mas na resiliência das estruturas que sobreviveram a eles. É uma distinção que merece ser preservada, sobretudo quando cresce a tentação de imaginar que instituições possam ser transplantadas ou que disputas domésticas possam ser arbitradas a partir do exterior. As maiores contribuições americanas ao desenvolvimento de outras nações vieram quando os Estados Unidos foram mais fiéis à sua melhor tradição, expandindo mercados, financiando inovação, formando talentos e criando condições para que cada sociedade encontrasse seu próprio caminho. Parcerias constroem confiança. A pressão raramente constrói mais do que ressentimento.

Por isso a relação entre Brasil e Estados Unidos permanece tão relevante. Não porque os dois países sejam semelhantes, mas porque suas trajetórias continuam extraordinariamente complementares. Muitas das maiores transformações brasileiras nasceram quando fomos capazes de absorver conhecimento externo sem abrir mão de nossa própria experiência histórica. O desafio contemporâneo não é muito diferente. O Brasil dispõe de recursos naturais, escala econômica, capacidade produtiva e capital humano suficientes para ocupar uma posição central no século XXI. O que permanece em aberto é algo mais difícil de medir: nossa disposição de converter vantagens temporárias em instituições permanentes, de deixar de explorar apenas aquilo que temos e começar, definitivamente, a construir aquilo que desejamos ser.

Ao celebrar 250 anos de independência, os Estados Unidos oferecem ao mundo não um modelo a ser copiado, mas uma lembrança útil. O desenvolvimento não é um acontecimento. É uma construção contínua, imperfeita e deliberada. Não depende apenas de riqueza, tecnologia ou território. Depende da capacidade de transformar conquistas ocasionais em instituições permanentes. O bandeirante e o pioneiro partiram do mesmo continente novo, cercados por recursos aparentemente inesgotáveis e por promessas igualmente grandiosas. Dois séculos e meio depois, a diferença entre eles não está naquilo que encontraram pelo caminho, mas naquilo que decidiram construir quando chegaram ao destino. Aos 250 anos, a experiência americana sugere que prosperidade não é o prêmio do crescimento. É o prêmio da maturidade. E essa continua sendo a fronteira mais difícil do Estado brasileiro. A sociedade brasileira, em muitos lugares, já começou a travessia.

Gustavo Diniz Junqueira é empresário e foi secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

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