Cessar-fogo ‘quase total’ no Líbano não dissipa tensões e testa negociação EUA-Irã
Autoridades libaneses informaram nesta segunda-feira, 22, que o cessar-fogo implementado há três dias no país, com intuito de interromper os combates entre Israel e a milícia Hezbollah, está sendo amplamente respeitado. Segundo uma fonte consultada pela agência de notícias Reuters, a adesão à trégua tem sido “quase total” desde a noite do último sábado.
No entanto, a mesma fonte relatou que um tanque israelense disparou projéteis contra uma vila perto da cidade litorânea Tiro, no sudoeste do Líbano, e que forças de Israel lançaram granadas de efeito moral em outros dois locais nesta segunda. Um drone israelense também sobrevoou Beirute.
A tensão permanente nesta frente da guerra no Oriente Médio tem testado o acordo provisório entre os Estados Unidos e o Irã para encerrar o conflito regional. No final de semana, Teerã anunciou que havia voltado a fechar o Estreito de Ormuz, alegando que Washington não cumpriu o compromisso de cessar os combates no Líbano.
O vice-presidente americano, J.D. Vance, que liderou sua delegação na primeira rodada de negociações com o Irã no fim de semana, afirmou que houve progresso rumo ao fim das hostilidades no Líbano e que o Estreito está aberto novamente. Ele disse que a questão libanesa “é um processo em andamento”.
Calma tensa
Há, pelo menos, uma calmaria amplamente desconhecida desde que as bombas começaram a cair em território libanês, em 2 de março, pouco após o início da guerra ao Irã. Hassan Wazni, diretor de um hospital em Nabatieh – cidade no sul do país que foi fortemente atacada durante o conflito – disse que a poeira baixou desde a noite de sábado.
“Estou monitorando a situação diariamente e, na maior parte do tempo, durmo no hospital. Este é o cessar-fogo mais longo que já duramos”, disse ele à Reuters por telefone.
No entanto, o médico fez uma ressalva: a população deslocada pelos bombardeios ainda hesita em voltar para casa, temerosa de uma retomada dos ataques. O cessar-fogo imposto na sexta-feira chegou a entrar em colapso momentaneamente no sábado, quando 20 pessoas morreram no Líbano por disparos israelenses, segundo a Defesa Civil libanesa.
“As pessoas ainda estão inquietas”, disse Wazni. O conselho municipal da vila de Zawtar El Charqiyeh, em um comunicado divulgado nas redes sociais, orientou que os moradores não retornem até que seja totalmente seguro.
As forças israelenses permanecem posicionadas no interior do sul do Líbano, ocupando o que chamam de “zona de segurança” onde vilarejos foram reduzidos a escombros (de acordo com os militares, o Hezbollah se infiltrou em áreas civis). Mas, refletindo a redução das tensões, o Exército suspendeu as restrições de segurança em oito comunidades no norte de Israel, próximas à fronteira libanesa, a partir das 6h locais desta segunda.
O imbróglio do Líbano nas negociações EUA-Irã
Uma declaração conjunta emitida ao final das primeiras conversas entre os Estados Unidos e o Irã, mediadas pelo Paquistão e Catar na Suíça, afirmou que as partes concordaram em criar uma “célula de desconflito” para garantir o cumprimento do cessar-fogo no Líbano.
Israel, porém, ainda não se pronunciou sobre o assunto.
Por insistência do Irã, um acordo provisório assinado com os Estados Unidos na semana passada exige que Washington, Teerã e seus aliados imponham o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes da guerra no Oriente Médio, incluindo o Líbano.
Na última sexta, Israel e Hezbollah concordaram com um novo cessar-fogo, enquanto ainda vigorava uma trégua que, embora estendida em meio a negociações entre autoridades israelenses e o governo libanês com mediação de Washington, ficou só no papel.
Depois disso, o presidente do Líbano, Joseph Aoun, afirmou ter discutido os esforços para manter de pé o atual cessar-fogo e impedir a escalada militar israelense durante uma conversa telefônica com Vance. Também participaram o primeiro-ministro do Catar, o xeque Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, e o genro de Donald Trump, Jared Kushner, que no seu primeiro mandato atuou como enviado especial para o Oriente Médio.
Desde que o Hezbollah abriu fogo contra Israel em apoio ao Irã em 2 de março, os ataques de retaliação ao Líbano mataram 4.106 pessoas, incluindo 773 mulheres, crianças e profissionais de saúde, segundo o Ministério da Saúde do país. O número de mortos não especifica quantos são combatentes do grupo armado.
Além disso, cerca de 1,2 milhão de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas no Líbano.
Do outro lado, o número de mortos em Israel devido aos ataques do Hezbollah inclui pelo menos 32 soldados e quatro civis.