China lança livro branco e propõe reforma da governança global
O governo da China lançou, nesta quarta-feira, dia 17, um extenso documento oficial, chamado de livro branco, com sua visão sobre como o mundo deveria ser governado. O texto defende o fortalecimento da ONU, critica sanções unilaterais e guerras tarifárias, e apresenta uma iniciativa própria para reformar o sistema multilateral internacional. O documento se chama “Governança Global Mais Justa e Equitativa: Princípios, Propostas e Ações da China” e foi divulgado pelo Departamento de Comunicação do Conselho de Estado: equivalente, na estrutura do governo chinês, a um ministério da comunicação.
Livros brancos são um instrumento habitual da diplomacia chinesa para comunicar posições oficiais. Este, em particular, chega em um momento de tensão elevada no cenário internacional: guerras em curso, questionamento sobre a eficácia das instituições multilaterais e disputa crescente entre grandes potências.
O ponto de partida do documento é um retrato sombrio da situação global. Segundo o texto, 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde o fim da Segunda Guerra Mundial: mais de 50 países diretamente envolvidos em guerras ou conflitos. A guerra na Ucrânia é citada como estando em seu quinto ano. As hostilidades no Oriente Médio são descritas como em expansão.
Os números sociais apresentados também são pesados: mais de 830 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no mundo; 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar. E quase 80% das metas da Agenda 2030 da ONU (o grande pacto global de desenvolvimento sustentável firmado há mais de uma década) estão, segundo o documento, “progredindo lentamente ou mesmo regredindo”.
O livro branco também aponta para o enfraquecimento das instituições multilaterais. Cita como exemplos a retirada de países de acordos e organismos internacionais, o bloqueio sistemático de resoluções no Conselho de Segurança da ONU e a paralisação do mecanismo de solução de disputas da Organização Mundial do Comércio (OMC). A conclusão do texto é que o sistema de governança global precisa ser reformado, não desmantelado, mas adaptado à realidade do mundo atual.
Num dos trechos mais diretamente políticos, o documento critica o que chama de “unilateralismo”, “protecionismo” e “hegemonismo”: práticas como a imposição de sanções unilaterais, a deflagração de guerras tarifárias e o uso de questões econômicas e tecnológicas como armas geopolíticas. O texto não nomeia países, mas o contexto das críticas aponta para comportamentos associados a grandes potências ocidentais, em especial, os Estados Unidos.
O livro branco questiona se a ordem internacional deve ser regida pela “lei da selva” ou pelo direito internacional. E defende que países, sejam grandes ou pequenos, ricos ou pobres, devem ser tratados como iguais na esfera global.
A peça central do documento é a Iniciativa de Governança Global (IGG), lançada pelo presidente Xi Jinping em 2025, no ano em que a ONU completou 80 anos. A IGG é apresentada como a “solução chinesa” para dois problemas centrais: que tipo de sistema de governança global deveria existir e como o atual pode ser melhorado.
A iniciativa se apoia em cinco pilares: igualdade soberana entre os países, primazia do direito internacional, multilateralismo, foco no bem-estar das populações e compromisso com resultados práticos. De acordo com o documento, a IGG já conta com o apoio de quase 160 países e organizações internacionais. Mais de 60 nações aderiram ao chamado Grupo de Amigos para a Governança Global.
Um ponto que o livro branco faz questão de sublinhar: a IGG não pretende criar uma ordem paralela à ONU. Ao contrário, defende o fortalecimento da organização: “Defender resolutamente a autoridade e o status da ONU é fundamental para a implementação eficaz dessa iniciativa”, diz o texto.
Boa parte do documento é dedicada a listar as contribuições que a China afirma prestar à governança global. No campo da segurança, o livro branco informa que mais de 50 mil militares chineses já participaram de 29 operações de paz da ONU, e que o país é o segundo maior contribuinte financeiro para o orçamento de manutenção da paz da organização, além de ser o maior fornecedor de tropas entre os membros permanentes do Conselho de Segurança.
Na diplomacia, o texto reivindica para a China papel de mediadora em conflitos regionais. O documento menciona a mediação que teria contribuído para a retomada de relações entre Arábia Saudita e Irã; as conversações entre 14 facções palestinas realizadas em Pequim, que resultaram na chamada Declaração de Pequim; a participação no Grupo de Amigos para a Paz no conflito na Ucrânia, ao lado do Brasil e outros países; e atuações em Myanmar, Camboja, Tailândia, Afeganistão e Paquistão.
Na economia, o livro branco apresenta números expressivos: a China é o principal parceiro comercial de mais de 160 países e regiões. O volume de comércio com os participantes da Iniciativa Cinturão e Rota (projeto de infraestrutura e conectividade liderado por Pequim) atingiu 23,6 trilhões de yuans em 2025, alta de 6,3%. As importações chinesas de bens e serviços entre 2021 e 2025 superaram US$ 15 trilhões.
O documento também reserva atenção especial ao chamado Sul Global: o conjunto de países em desenvolvimento da África, Ásia, América Latina e Oriente Médio. O livro branco afirma que, medidos pela paridade de poder de compra, esses países já respondem por mais de 60% da economia mundial e por 80% do crescimento econômico global.
Com base nisso, a China defende que essas nações precisam de mais voz nas instituições internacionais. O texto critica especificamente os atrasos nas reformas de cotas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de participação acionária no Banco Mundial (mudanças que ampliariam a influência dos países emergentes nessas instituições). Também cita o BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai (OCX), o G20 e o G77 como fóruns onde essa representatividade tem crescido.