China prepara sistema de pagamentos digitais para reduzir dependência do dólar
A China está prestes a lançar comercialmente uma plataforma de pagamentos internacionais baseada em moedas digitais de bancos centrais, em mais um passo da estratégia de Pequim para ampliar a influência do yuan no comércio internacional e reduzir a dependência do sistema financeiro dominado pelo dólar.
Batizado de mBridge, o projeto reúne os bancos centrais da China, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
Segundo pessoas familiarizadas com a iniciativa, a operação será supervisionada por uma entidade sediada em Hong Kong e já está em estágio avançado de preparação.
Embora a data de lançamento não tenha sido divulgada, os responsáveis pelo projeto afirmam que as tarifas poderão ser até 50% menores do que as cobradas pelos sistemas tradicionais de pagamentos internacionais.
Alternativa ao sistema dominado pelos EUA
O mBridge surge em um momento de crescente fragmentação da arquitetura financeira internacional.
Hoje, a maior parte das transferências internacionais passa pela rede Swift, criada na Bélgica e utilizada por mais de 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países. Embora a Swift não movimente recursos diretamente, ela funciona como a principal infraestrutura de comunicação entre bancos ao redor do mundo.
Nos últimos anos, governos que buscam reduzir a influência financeira dos Estados Unidos passaram a desenvolver sistemas alternativos. A China já opera o Cips, mecanismo de compensação internacional em yuan frequentemente descrito como a versão chinesa da Swift.
O mBridge, porém, vai além. A plataforma utiliza tecnologia blockchain para permitir liquidações quase instantâneas entre bancos centrais usando moedas digitais soberanas, eliminando etapas intermediárias e reduzindo a necessidade de converter operações para dólares.
Segundo participantes do projeto, transações cambiais que hoje podem levar horas ou dias seriam concluídas em segundos.
Guerra reforça busca por alternativas
O avanço da iniciativa ocorre em meio às mudanças provocadas pela guerra entre Irã e Israel e pelas tensões geopolíticas mais amplas envolvendo Washington e Pequim.
Desde o início do conflito no Oriente Médio, autoridades chinesas registraram aumento significativo no uso do Cips para pagamentos internacionais, refletindo o interesse de alguns países em diversificar suas opções financeiras diante da possibilidade de sanções ou restrições ligadas ao sistema financeiro americano.
Especialistas observam que o mBridge pode fortalecer os laços econômicos da China com parceiros da Iniciativa Cinturão e Rota, programa de infraestrutura e comércio que conecta Pequim a dezenas de países da Ásia, África e Oriente Médio.
“Trata-se, em certa medida, de uma versão digital da Nova Rota da Seda”, afirmou Tom Keatinge, diretor do Centro de Finanças e Segurança do instituto britânico RUSI, ao Financial Times.
Disputa por influência monetária
A corrida por novos sistemas de pagamento não se limita à China.
A União Europeia vem ampliando iniciativas para fortalecer sua autonomia financeira, enquanto empresas privadas também disputam espaço no mercado de transferências internacionais.
Ao mesmo tempo, o governo de Donald Trump tem demonstrado apoio ao desenvolvimento de stablecoins lastreadas em dólar, buscando preservar a relevância da moeda americana em um ambiente cada vez mais digital.
Para Gene Ma, economista-chefe para China do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), o cenário aponta para uma transformação gradual da infraestrutura financeira internacional.
“O sistema de pagamentos está deixando de ser uma rede única para se tornar um conjunto de plataformas concorrentes”, afirmou.
Projeto enfrentou resistência dos EUA
A iniciativa também esteve cercada de controvérsias.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais, participou do desenvolvimento do projeto até 2024, quando transferiu sua gestão para os países envolvidos.
Reportagens anteriores indicaram que autoridades americanas demonstraram preocupação com a possibilidade de o sistema facilitar transações fora da esfera de influência do dólar e reduzir a eficácia de sanções financeiras impostas pelos EUA.
Os responsáveis pelo projeto afirmam, contudo, que a plataforma segue as regras internacionais de combate à lavagem de dinheiro e financiamento ilícito estabelecidas pela Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF).
Pequim busca ampliar papel do yuan
Até agora, o mBridge já processou cerca de 470 bilhões de yuans (R$ 358 bilhões) em operações durante sua fase de testes, segundo fontes próximas ao projeto.
Analistas avaliam que a plataforma pode acelerar o processo de internacionalização da moeda chinesa, uma prioridade estratégica para Pequim há mais de uma década.
Apesar de a China responder por cerca de 15% do comércio internacional, o yuan ainda representa parcela relativamente pequena das reservas globais e dos pagamentos transfronteiriços, muito atrás do dólar.
A criação de sistemas próprios de liquidação e pagamentos é vista por autoridades chinesas como um instrumento para ampliar a presença da moeda no comércio internacional e aumentar a influência do país na ordem financeira internacional.