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China prepara sistema de pagamentos digitais para reduzir dependência do dólar

15 de Junho de 2026, 19:12 0 visualizações
China prepara sistema de pagamentos digitais para reduzir dependência do dólar

A China está prestes a lançar comercialmente uma plataforma de pagamentos internacionais baseada em moedas digitais de bancos centrais, em mais um passo da estratégia de Pequim para ampliar a influência do yuan no comércio internacional e reduzir a dependência do sistema financeiro dominado pelo dólar.

Batizado de mBridge, o projeto reúne os bancos centrais da China, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

Segundo pessoas familiarizadas com a iniciativa, a operação será supervisionada por uma entidade sediada em Hong Kong e já está em estágio avançado de preparação.

Embora a data de lançamento não tenha sido divulgada, os responsáveis pelo projeto afirmam que as tarifas poderão ser até 50% menores do que as cobradas pelos sistemas tradicionais de pagamentos internacionais.

Alternativa ao sistema dominado pelos EUA

O mBridge surge em um momento de crescente fragmentação da arquitetura financeira internacional.

Hoje, a maior parte das transferências internacionais passa pela rede Swift, criada na Bélgica e utilizada por mais de 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países. Embora a Swift não movimente recursos diretamente, ela funciona como a principal infraestrutura de comunicação entre bancos ao redor do mundo.

Nos últimos anos, governos que buscam reduzir a influência financeira dos Estados Unidos passaram a desenvolver sistemas alternativos. A China já opera o Cips, mecanismo de compensação internacional em yuan frequentemente descrito como a versão chinesa da Swift.

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O mBridge, porém, vai além. A plataforma utiliza tecnologia blockchain para permitir liquidações quase instantâneas entre bancos centrais usando moedas digitais soberanas, eliminando etapas intermediárias e reduzindo a necessidade de converter operações para dólares.

Segundo participantes do projeto, transações cambiais que hoje podem levar horas ou dias seriam concluídas em segundos.

Guerra reforça busca por alternativas

O avanço da iniciativa ocorre em meio às mudanças provocadas pela guerra entre Irã e Israel e pelas tensões geopolíticas mais amplas envolvendo Washington e Pequim.

Desde o início do conflito no Oriente Médio, autoridades chinesas registraram aumento significativo no uso do Cips para pagamentos internacionais, refletindo o interesse de alguns países em diversificar suas opções financeiras diante da possibilidade de sanções ou restrições ligadas ao sistema financeiro americano.

Especialistas observam que o mBridge pode fortalecer os laços econômicos da China com parceiros da Iniciativa Cinturão e Rota, programa de infraestrutura e comércio que conecta Pequim a dezenas de países da Ásia, África e Oriente Médio.

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“Trata-se, em certa medida, de uma versão digital da Nova Rota da Seda”, afirmou Tom Keatinge, diretor do Centro de Finanças e Segurança do instituto britânico RUSI, ao Financial Times.

Disputa por influência monetária

A corrida por novos sistemas de pagamento não se limita à China.

A União Europeia vem ampliando iniciativas para fortalecer sua autonomia financeira, enquanto empresas privadas também disputam espaço no mercado de transferências internacionais.

Ao mesmo tempo, o governo de Donald Trump tem demonstrado apoio ao desenvolvimento de stablecoins lastreadas em dólar, buscando preservar a relevância da moeda americana em um ambiente cada vez mais digital.

Para Gene Ma, economista-chefe para China do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), o cenário aponta para uma transformação gradual da infraestrutura financeira internacional.

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“O sistema de pagamentos está deixando de ser uma rede única para se tornar um conjunto de plataformas concorrentes”, afirmou.

Projeto enfrentou resistência dos EUA

A iniciativa também esteve cercada de controvérsias.

O Banco de Compensações Internacionais (BIS), conhecido como o banco central dos bancos centrais, participou do desenvolvimento do projeto até 2024, quando transferiu sua gestão para os países envolvidos.

Reportagens anteriores indicaram que autoridades americanas demonstraram preocupação com a possibilidade de o sistema facilitar transações fora da esfera de influência do dólar e reduzir a eficácia de sanções financeiras impostas pelos EUA.

Os responsáveis pelo projeto afirmam, contudo, que a plataforma segue as regras internacionais de combate à lavagem de dinheiro e financiamento ilícito estabelecidas pela Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF).

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Pequim busca ampliar papel do yuan

Até agora, o mBridge já processou cerca de 470 bilhões de yuans (R$ 358 bilhões) em operações durante sua fase de testes, segundo fontes próximas ao projeto.

Analistas avaliam que a plataforma pode acelerar o processo de internacionalização da moeda chinesa, uma prioridade estratégica para Pequim há mais de uma década.

Apesar de a China responder por cerca de 15% do comércio internacional, o yuan ainda representa parcela relativamente pequena das reservas globais e dos pagamentos transfronteiriços, muito atrás do dólar.

A criação de sistemas próprios de liquidação e pagamentos é vista por autoridades chinesas como um instrumento para ampliar a presença da moeda no comércio internacional e aumentar a influência do país na ordem financeira internacional.

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