Clima interno na Meta atinge pior nível em duas décadas, diz executivo
A moral dos funcionários da Meta atingiu um dos níveis mais baixos da história da companhia, segundo avaliação feita pelo diretor de tecnologia da empresa, Andrew Bosworth, em conversa interna com empregados vazada à imprensa americana.
De acordo com relatos de participantes da reunião, Bosworth afirmou que o clima organizacional está entre os piores já registrados em seus cerca de 20 anos na empresa.
O executivo comparou a situação atual ao período posterior ao escândalo da Cambridge Analytica, em 2018, quando a rede social enfrentou uma das maiores crises de reputação de sua trajetória.
A declaração expõe os desafios enfrentados pela Meta em meio à corrida pela liderança em inteligência artificial, que tem levado o grupo a promover reestruturações internas, cortes de custos e mudanças significativas na rotina dos funcionários.
Demissões e reorganização alimentam descontentamento
O desgaste ocorre após uma série de medidas adotadas pela companhia ao longo do ano.
Em maio, a Meta anunciou a demissão de cerca de 10% de sua força de trabalho. A empresa justificou os cortes como parte do esforço para financiar investimentos bilionários em infraestrutura de inteligência artificial, incluindo centros de dados e desenvolvimento de novos modelos.
Paralelamente, aproximadamente 10% dos funcionários remanescentes foram transferidos para equipes dedicadas ao treinamento de sistemas de IA.
Segundo reportagens da imprensa americana, parte dos empregados passou a se referir à iniciativa como um “alistamento obrigatório”, por considerar que as novas funções se assemelhavam mais a atividades de rotulagem e classificação de dados do que a trabalhos de engenharia avançada.
Outra medida que gerou reação negativa foi a adoção de ferramentas para monitorar movimentos de mouse e padrões de uso dos computadores, iniciativa que teria como objetivo melhorar sistemas internos de inteligência artificial.
Zuckerberg acelera disputa pela liderança em IA
A pressão interna reflete uma transformação mais ampla na estratégia da Meta.
Desde 2023, o presidente-executivo, Mark Zuckerberg, vem direcionando recursos crescentes para inteligência artificial em uma tentativa de competir com empresas como OpenAI, Anthropic e Google.
A companhia investe dezenas de bilhões de dólares por ano em infraestrutura computacional, desenvolvimento de modelos de linguagem e contratação de pesquisadores especializados. A estratégia é vista por analistas como uma das mais agressivas do setor de tecnologia.
Ao mesmo tempo, investidores têm pressionado as grandes empresas do Vale do Silício para demonstrar retorno financeiro desses investimentos, o que aumenta a cobrança por eficiência operacional.
Empresa tenta recuperar cultura interna
Diante do cenário de insatisfação, a liderança da Meta iniciou uma série de ações para tentar melhorar o ambiente de trabalho.
Em comunicado interno enviado aos funcionários nesta semana, Bosworth afirmou que a empresa precisa voltar a ser “o melhor lugar para os melhores profissionais realizarem seu melhor trabalho”.
O executivo também defendeu a recuperação de elementos da cultura corporativa que marcaram o crescimento da companhia nos primeiros anos.
Entre as medidas anunciadas estão maior transparência por parte da liderança, reforço em programas de desenvolvimento profissional e flexibilização para que funcionários deslocados para projetos de inteligência artificial possam voltar a disputar vagas em outras áreas da empresa.
A Meta também ampliou verbas destinadas a viagens corporativas, eventos internos e benefícios para funcionários.
Desafio vai além da Meta
A situação reflete uma tendência observada em todo o setor de tecnologia.
Após anos de expansão acelerada durante a pandemia, empresas do Vale do Silício passaram por ondas de demissões e reestruturações para acomodar os elevados gastos exigidos pela inteligência artificial.
Companhias como Microsoft, Google e Amazon também anunciaram cortes de pessoal nos últimos anos enquanto aumentavam investimentos em IA.
No caso da Meta, porém, o desafio é particularmente sensível. A empresa emprega mais de 70 mil pessoas e depende diretamente da capacidade de atrair e reter engenheiros altamente qualificados para sustentar sua ambição de liderar a próxima geração de tecnologias de inteligência artificial.
Para parte dos funcionários, segundo relatos publicados pela imprensa americana, a questão central deixou de ser apenas a remuneração e passou a envolver o papel que cada profissional desempenhará dentro de uma companhia cada vez mais orientada por sistemas de IA.