Com produção de mais de 20 mil drones por dia, Ucrânia aperta o jogo
As conclusões dos especialistas são unânimes: a Ucrânia virou uma superpotência em matéria de drones. Com uma produção pulverizada entre até 500 fornecedores, o país está dando uma canseira nas forças russas, com ataques de grande porte até recentemente inimagináveis contra Moscou, algo que não poderia fazer com os armamentos fornecidos por americanos e europeus, e agora um assédio à Crimeia diante do qual foi preciso decretar um estado de emergência.
O país que parecia a caminho de se resignar diante da superioridade russa nos pontos mais disputados da frente de guerra, encontrou um espaço para reagir e, mais do que se proteger, atacar no coração do inimigo, um clássico da arte da guerra.
Fez isso seguindo outro princípio imemorial, consagrado pelo mestre Sun Tzu: “Conheça o inimigo e conheça a si mesmo”.
Os russos foram pioneiros na tática de saturar as frentes de combate com nuvens de drone que estonteiam as defesas antiaéreas. Como responder na mesma linguagem a um inimigo com um território 27 vezes maior, PIB de dez a um e uma indústria bélica vasta e amplamente enraizada desde a época do comunismo?
PRIVATIZAÇÃO BÉLICA
Fazendo tudo diferente. Por exemplo, a produção de drones foi privatizada, não concentrada em indústria estatais ou parceiras de grande porte. A cientista social ucraniana Lesia Bidochko explicou como o sistema funciona.
“Em vez de produzir ele próprio as armas, o Estado ucraniano as encomenda, criando uma demanda constante à qual centenas de empresas privadas respondem. O Estado estabelece o piso através de encomendas, subsídios e contratos prioritários, mas não controla o teto”.
“Em consequência disso, mais de 500 empresas hoje produzem drones na Ucrânia, com 40 a 50 consideradas líderes do mercado. O setor privado produz cerca de 90% dos FPV”. A sigla equivale a “visão em primeira pessoa”, termo que migrou dos games para os drones que são pilotados através de óculos de realidade virtual.
Muitas unidades de montagem – as peças são basicamente chinesas – não têm instalações sofisticadas ou grandiosas. Como na foto acima, homens e mulheres vão, se não ganhando, pelo menos não perdendo a guerra, em pequenas oficinas.
EM TEMPO REAL
Outra inovação: os drones são imediatamente checados e até alterados pelas equipes que combatem na linha de frente – algo impensável nos grandes exércitos, alimentados por indústria bélicas gigantescas. Se o combatente, que é o principal interessado, inclusive em manter a própria vida, acha que alguma coisa vai funcionar melhor, pode ele próprio fazer a modificação ao solicitá-la diretamente ao fornecedor.
Esse feedback faz uma enorme diferença. Explicou Lesia Bidochko: “Os engenheiros ucranianos trabalham juntos com as unidades de combate, recebem em tempo real as informações sobre o desempenho e podem despachar sistemas modificados em questão de semanas. Algumas brigadas alteram até metade dos drones recebidos”.
É uma improvisação que funciona e economiza até anos em matéria de adaptação. Uma técnica de interceptação que funciona hoje, por exemplo, pode ser inútil daqui a um mês se o adversário se adaptar. Os sistemas centralizados não podem reagir com agilidade às rápidas mudanças no campo de batalha”.
Isso tudo só é possível, obviamente, porque a Ucrânia já tinha um vasto setor de engenheiros e programadores – mesmo tendo sofrido grande perda dessa mão de obra qualificada por causa da fuga de cérebros provocada pela guerra. A boa formação em matemática e ciências remonta aos tempos soviéticos, quando estas disciplinas eram intensamente incentivadas.
NECESSIDADE DE SOBREVIVÊNCIA
Herdeiros da mesma escola hoje se defrontam nos campos de batalha e nas telas de computadores.
A recente operação Força Épica mostrou como os mísseis e drones iranianos foram capazes de furar os caríssimos sistemas de defesa antiaérea dos aliados do Golfo e das bases americanas em seu território – mais até do que foi admitido na época.
Um drone interceptador Sting custa 2,5 mil dólares, contra 3 milhões do caríssimo sistema Patriot, a joia da coroa americana.
“Ä tecnologia melhorou e a Ucrânia se tornou capaz de fazer mais ataques do que antes”, disse ao Wall Street Journal o analista militar Michael Kofman. Quantidade conta porque torna mais fácil saturar os sistemas antiaéreos. Nesse anos, a produção de drones pode chegar a estarrecedores 20 milhões.
Os drones mudaram a guerra e a guerra está mudando todos os dias. O poder russo não pode ser minimizado – e soam tetricamente ameaçadoras as palavras de Vladimir Putin ao dizer ontem que “estamos vendo os problemas e estamos respondendo a eles”. Os ucranianos sabem disso como ninguém. Estão usando engenhosidade por necessidade de sobrevivência. E usando bem.