Como a L´Oréal transformou a VivaTech em uma vitrine para o futuro da beleza?
Durante quatro dias, Paris foi menos a capital da moda e mais a capital do futuro. Nos corredores da VivaTech 2026, algoritmos conversavam, máquinas aprendiam e a inteligência artificial deixava de ser promessa para se tornar experiência concreta. Entre startups, gigantes da tecnologia e laboratórios de pesquisa, um setor chamou atenção pela velocidade com que está reinventando a si mesmo: a beleza.
Foi nesse cenário que a L’Oréal celebrou uma década de participação na principal feira de inovação da Europa. Sob o tema “A Odisseia da Beleza”, a companhia apresentou sua visão para os próximos anos, em que ciência, dados, biotecnologia e inteligência artificial se unem para criar uma indústria mais personalizada, preditiva e conectada às necessidades individuais dos consumidores. “Entramos em uma nova era. A conversa se tornou o centro da jornada de beleza”, disse Béatrice Dautzenberg, diretora global de Serviços e Inovação Aberta da L’Oréal a VEJA. “Não falamos mais em pontos de contato, mas em uma jornada impulsionada por inteligência artificial, um diálogo contínuo entre pessoas e marcas.”
A dimensão dos investimentos ajuda a explicar essa ambição. O grupo francês destina 1,3 bilhão de euros anuais à pesquisa e inovação e prevê investimentos de 1,5 bilhão de euros em tecnologia. Hoje, a companhia conecta mais de 27 mil terabytes de dados em sua infraestrutura global e já treinou mais de 73 mil colaboradores em inteligência artificial generativa.
Foi justamente essa revolução que norteou as apresentações da L’Oréal durante a feira. A companhia mostrou como vem integrando inteligência artificial em todas as etapas de sua cadeia de valor, da descoberta de ingredientes ao marketing, passando por novas experiências de consumo. Entre os destaques estiveram colaborações estratégicas com gigantes da tecnologia como NVIDIA, IBM, Anthropic e OpenAI, além de demonstrações que mostraram como ciência, dados e criatividade caminham cada vez mais lado a lado.
Para Béatrice, a própria forma de buscar informações sobre beleza está mudando. “A busca já não acontece apenas por texto. Ela pode acontecer por voz, por imagem ou até por uma foto da prateleira do banheiro. Estamos criando um ecossistema em que a conversa sobre beleza acontece em qualquer lugar.”
Sob uma cenografia imersiva inspirada na palavra grega Kallisté — “a mais bela” —, os visitantes percorreram quatro grandes territórios que antecipam os próximos passos da indústria: jornadas de consumo impulsionadas por IA, novas formas de storytelling cultural, tecnologias para cabelos e avanços ligados à longevidade da pele.
A L’Oréal apresentou também uma visão de futuro em que inteligência artificial, diagnósticos de alta precisão, biotecnologia e modelagem preditiva trabalham juntos para criar experiências sob medida. E ainda chamou atenção para a forma como a tecnologia vem sendo utilizada para acelerar pesquisas científicas, desenvolver fórmulas mais eficientes e oferecer recomendações cada vez mais individualizadas.
E um detalhe importante – reforçou um tema cada vez mais relevante no universo tecnológico: a ética. A companhia destacou seus princípios de IA responsável e reiterou seu compromisso de não utilizar imagens hiper-realistas geradas por inteligência artificial para representar resultados de produtos em suas comunicações externas.
Em uma feira marcada por discussões sobre agentes autônomos, modelos de linguagem e a próxima geração da inteligência artificial, a beleza mostrou que não pretende apenas acompanhar a transformação digital — quer ajudar a defini-la.

Tecnológica, mas humana
O que surge desse novo cenário, segundo Béatrice, é uma beleza que usa tecnologia, mas não foge à realidade. “O futuro da beleza continuará sendo profundamente social e cultural, mas será cada vez mais personalizado”, afirmou.
Ao caminhar pela VivaTech, a sensação era de que a tecnologia já não é apenas uma ferramenta para a indústria da beleza. Ela se tornou parte de sua própria essência. E, se Paris continua sendo uma das capitais mundiais da beleza, durante alguns dias de junho ela também se consolidou como o lugar onde o futuro ganhou forma entre algoritmos, ciência e uma aspiração tão antiga quanto a humanidade: a busca incessante pelo belo, em que a L’Oréal tomou a frente como uma das protagonistas dessa transformação tecnológica, mas essencialmente humana.
