Como Benedito Ruy Barbosa ousou ao colocar MST e lutas da esquerda na TV Globo
Benedito Ruy Barbosa, que morreu aos 95 anos nesta terça-feira, 7, fez contribuições significativas para a teledramaturgia brasileira, incluindo a temática agro-política em suas criações.
A inserção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em O Rei do Gado foi um desses momentos mais marcantes e politicamente ousados da história da ficção televisiva no país. Exibida entre 1996 e 1997, a novela de Benedito levou para o horário nobre da TV aberta um debate que, até então, estava restrito sobretudo ao noticiário e ao campo político: a concentração fundiária, a reforma agrária e os conflitos entre grandes proprietários rurais e trabalhadores sem-terra. Ao transformar esse tema em parte central da narrativa ficcional, a novela contribuiu para ampliar o debate público sobre a questão agrária no Brasil.
A trama apresentou personagens inspirados no universo dos trabalhadores rurais organizados, retratando acampamentos, ocupações de terra, negociações com o Estado e as condições precárias de milhares de famílias. Embora a novela não reproduzisse literalmente a estrutura do MST, diversos elementos remetiam claramente ao movimento, reconhecidos pelo público e pela imprensa da época. O personagem Regino, interpretado por Jackson Antunes, tornou-se o principal representante dessa luta, sendo construído como um líder comprometido com a conquista da terra e a justiça social.
A abordagem gerou intenso debate. Setores ligados ao agronegócio e a entidades ruralistas criticaram a novela por considerar que ela conferia legitimidade às reivindicações dos trabalhadores sem-terra e apresentava uma visão favorável da reforma agrária. Em contrapartida, pesquisadores da comunicação e movimentos sociais destacaram a relevância de a principal emissora do país inserir, no horário nobre, um tema estrutural da sociedade brasileira, ampliando sua visibilidade e estimulando discussões públicas sobre desigualdade no campo.
O próprio Benedito afirmou em diversas entrevistas que seu objetivo não era defender um partido político ou um movimento específico, mas retratar um problema histórico do país. Para construir a narrativa, o autor realizou pesquisas sobre os conflitos agrários, conversou com produtores rurais, trabalhadores e especialistas, buscando representar diferentes perspectivas do tema. Essa preocupação contribuiu para que O Rei do Gado fosse reconhecida não apenas como um grande sucesso de audiência, mas também como uma das novelas que mais aproximaram a ficção televisiva de questões sociais contemporâneas.
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