Início / Como funcionava esquema de bicheiro para comprar…

Como funcionava esquema de bicheiro para comprar apoio político no Rio, segundo a PF

17 de Julho de 2026, 15:45 5 visualizações
Como funcionava esquema de bicheiro para comprar apoio político no Rio, segundo a PF

Uma rede de empresas do setor gráfico, algumas sem estrutura compatível com os valores recebidos e registradas em nome de pessoas de baixo poder econômico, teria sido usada para fazer circular dinheiro da contravenção e financiar campanhas no Rio de Janeiro. Esse é o desenho do chamado “núcleo gráfico” da organização atribuída pela Polícia Federal ao bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, apontado como chefe da máfia dos cigarros.

De acordo com a investigação da Operação Unha e Carne, a engrenagem serviria para repassar dinheiro gerado pelo jogo do bicho e pelo comércio clandestino de cigarros a campanhas eleitorais em troca de proteção política. A defesa de Adilsinho nega qualquer relação com as gráficas e afirma que ele jamais fez pagamentos a agentes públicos.

Planilhas apreendidas na casa de Adilsinho reforçaram as suspeitas. Uma delas reunia nomes de políticos e candidatos acompanhados de valores que somavam quase 22 milhões de reais. Outros dois documentos registravam cerca de 7,4 milhões de reais em pagamentos em espécie e transferências bancárias. Ao todo, os registros relacionavam aproximadamente 29,4 milhões de reais a autoridades fluminenses.

A PF confrontou as anotações com as prestações de contas apresentadas por candidatos ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro e afirmou ter encontrado uma “perfeita convergência de dados”. A hipótese é a de que o bicheiro injetava dinheiro vivo nas campanhas e usava empresas do setor gráfico para dar aparência de legalidade aos repasses por meio de contratos, notas fiscais e despesas eleitorais declaradas. Os candidatos, segundo suspeitam os investigadores, defenderiam os interesses do contraventor nos poderes Executivo e Legislativo.

O núcleo seria comandado pelo empresário Marcos Alexandre Barros Rodrigues, com a participação do ex-vereador Jefferson David Simplício, descrito como “testa de ferro”. A investigação cita seis empresas: Gráfica Editora Completa, Nova Visual Representações Gráficas, Apel Gráfica e Editora, Fast Gráfica e Editora, Paper Color Gráfica e Editora e INC Indústrias Gráficas e Editora.

Continua após a publicidade

De acordo com a PF, as companhias formaram um “emaranhado societário” que, embora aparentemente regular, teria funcionado como instrumento de repasse de propinas. Os investigadores identificaram sócios formais sem patrimônio ou experiência empresarial compatíveis com a movimentação declarada. Além disso, não havia atividade nos endereços declarados das empresas.

A Gráfica Editora Completa, por exemplo, prestou serviços a 73 candidatos em 2022 e recebeu 1,48 milhão de reais. Dois anos depois, atendeu a 74 campanhas e faturou 3,33 milhões de reais. Para os investigadores, o crescimento é incompatível com a capacidade operacional conhecida da companhia. A empresa estava formalmente registrada em nome de Jefferson Simplício, que segundo a Polícia Federal seria apenas o proprietário formal, no papel, enquanto Marcos Alexandre controlava de fato o negócio.

A situação da Nova Visual também chamou a atenção. A empresa movimentou 6,32 milhões de reais nas eleições de 2022,. Seu único sócio formal é Walter Bandeira Crespo, motorista e beneficiário do auxílio emergencial em 2020. O e-mail da gráfica cadastrado na Receita Federal é o endereço eletrônico usado por empresas associadas a Marcos Alexandre, o que, para a PF, indica que ele é quem quem exercia o controle de fato da companhia.

Continua após a publicidade

Antes da ascensão da Gráfica Editora Completa, a Apel Gráfica teria ocupado posição semelhante no esquema. A empresa recebeu aproximadamente 12,8 milhões de reais de campanhas nas eleições de 2016, 2018 e 2020. Segundo a investigação, a Completa assumiu o espaço da Apel a partir do pleito de 2022, sugerindo uma continuidade operacional mesmo com a mudança dos CNPJs.

Entre os políticos que declararam pagamentos às gráficas estão o ex-governador Cláudio Castro, o ex-presidente da Assembleia Legislativa Rodrigo Bacellar e o ex-deputado federal Marco Antônio Cabral. Castro repassou 467.000 reais à Gráfica Editora Completa. Marco Antônio pagou cerca de 350.900 reais à Apel em 2018 e, posteriormente, aproximadamente 471.700 reais à Nova Visual.

A própria investigação ressalva que as contratações não comprovam, por si só, corrupção ou lavagem de dinheiro. O que despertou a suspeita foi a combinação entre os fornecedores, as planilhas apreendidas com Adilsinho, o perfil econômico dos sócios, a aparente falta de capacidade operacional de parte das gráficas e os vínculos empresariais ocultos entre as companhias. O próximo passo da Polícia Federal é verificar quais serviços foram efetivamente prestados pelas gráficas e quais contratos foram simulados para justificar propinas.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da investigação, considerou os elementos suficientes para autorizar buscas e apreensões, prisões e o bloqueio de todo o dinheiro eventualmente encontrado nas contas das gráficas.

Publicidade

Veja Também

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.

Deixe seu Comentário

Os comentários passam por moderação antes de serem publicados.