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Como Machado de Assis se antecipou à ciência na descrição de um diagnóstico psiquiátrico

16 de Junho de 2026, 15:50 0 visualizações
Como Machado de Assis se antecipou à ciência na descrição de um diagnóstico psiquiátrico

Quando pensamos em cuidar da saúde, é habitual nos lembrarmos de uma alimentação balanceada, das atividades físicas, da higiene do sono, mas pouca gente inclui na lista o hábito da leitura. É uma pena, porque a literatura pode ser uma grande aliada, sobretudo quando falamos em saúde mental.

É curioso não recordarmos disso, uma vez que há milênios a humanidade conhece essa relação: na entrada da biblioteca sagrada do faraó Ramsés II, no Egito, havia uma inscrição que dizia “lugar de cura para alma”.

Em tempos modernos, essa conexão profunda foi explicitamente enfatizada pelo próprio Freud, o pai da psicanálise, ao dizer que “o escritor não pode esquivar-se do psiquiatra, nem o psiquiatra do escritor”. Nessa direção, o escritor “sempre foi o precursor da ciência e da psicologia científica”.

E ele tem razão. Nas pesquisas que fiz para meu livro Machado de Assis: a loucura e as leis (Matrix Editora), que acaba de ganhar nova edição ampliada, descobri como um dos principais escritores da nossa história fez exatamente isso, antecipando-se em quase uma década à ciência.

No conto “O anjo Rafael”, de 1869, Machado de Assis conta a história de um homem psicótico que acredita ser o tal anjo, e transmite essa ideia delirante para a filha que vive isolada com ele, contagiando-a com sua “loucura”.

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Foi somente oito anos depois que os psiquiatras Lasègue e Falret descreveram formalmente esse quadro, denominando-o folie à deux, hoje conhecida como psicose compartilhada. Eis a literatura se antecipando à medicina.

Capa de livro com foto em preto e branco de Machado de Assis usando pince-nez, barba e bigode. O título MACHADO DE ASSIS A LOUCURA E AS LEIS está em branco e amarelo sobre fundo vermelho. O nome do autor, Daniel Martins de Barros, está no topo. Informações sobre o conteúdo e a editora Matrix aparecem no canto inferior direito
‘Machado de Assis: a loucura e as leis’, de Daniel Martins de Barros, da Matrix EditoraCapa: Matrix/Divulgação

Essa capacidade dos escritores de mergulhar na alma humana e retratá-la de maneira profunda é um dos elementos que conferem efeito terapêutico para a literatura. Afinal, “Cada leitor, ao ler, é na verdade o leitor de si mesmo”, como ensina Marcel Proust. “A obra do escritor é apenas uma espécie de instrumento óptico que ele fornece ao leitor para que este possa discernir o que talvez nunca tivesse visto em si mesmo sem este livro”.

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Os paralelos com a psicoterapia são claros: os bons terapeutas ajudam seus pacientes e enxergar as situações de uma forma nova ou talvez mais elaborada, mas são também apenas instrumentos para revelar o que já se encontrava ali.

Machado de Assis não era médico ou psicólogo, mas analisar os contos nos quais ele trata de questões psíquicas torna evidente como suas percepções não só se anteciparam às ciências como podem ser úteis ainda hoje para os leitores interessados em conhecer melhor a si mesmos.

Pois, para quem sofre, encontrar sua experiência numa página pode ser o primeiro sinal de que ela tem forma e, portanto, ser elaborada.

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Talvez a inscrição na biblioteca de Ramsés II não fosse uma mera metáfora, mas uma sábia prescrição.

* Daniel Martins de Barros é médico psiquiatra, professor colaborador da USP e escritor. Lançou recentemente a versão ampliada de seu livro Machado de Assis: a loucura e as leis pela Matrix Editora.

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