Coronel réu por estuprar filha tenta anular depoimento de testemunha
O coronel aposentado da Polícia Militar de São Paulo Luiz Enrique de Souza Ikeda, que admitiu ter estuprado a própria filha, tenta anular na Justiça o depoimento de uma conselheira tutelar responsável por denunciar o caso. O pedido tem como base o fato de que a mulher concedeu entrevista a um podcast e falou sobre as acusações contra o oficial. Segundo a defesa, a conselheira teria perdido a “neutralidade narrativa“.
Em maio do ano passado, o Metrópoles revelou um áudio em que o próprio Ikeda descreve cenas de abuso sexual. Os crimes teriam ocorrido em Limeira, no interior do estado, em 2011, quando a filha do coronel tinha 10 anos. A confissão registrada na gravação ocorreu anos depois, em 2017, em uma conversa entre o PM e a menina, já com 16 anos.
Após o inquérito se arrastar por cinco anos, Ikeda se tornou réu por estupro de vulnerável em fevereiro do ano passado. A reportagem teve acesso ao processo, que corre em segredo de Justiça, e constatou que desde então não houve movimentações relevantes e que não há data definida para julgamento.
O depoimento da conselheira tutelar que a defesa do coronel tenta anular foi concedido em um outro processo, que corre em paralelo, na Justiça Militar. Na oitiva, concedida em dezembro de 2024, a servidora detalha o momento em que encontrou um dos filhos de Ikeda, que na época tinha 13 anos, na rodovia Washington Luís, em São Carlos, tentando fugir de casa.
Quando questionado, o garoto teria dito que o pai abusava da irmã, e que, além disso, o deixava sem comer. Segundo a versão da conselheira tutelar, esse teria sido o motivo citado pelo menor para explicar por que estava fugindo de casa.
Ao solicitar a anulação do depoimento, o advogado Aldrin Santos Corpas afirma que a conselheira tutelar agiu com “sangue no olho” e “sede de Justiça”. A defesa ainda solicitou uma reabertura da instrução processual para a realização de uma nova oitiva. O objetivo, segundo o advogado, seria submeter a servidora ao contraditório em relação às alegações feitas no podcast. O pedido foi negado.
Gravação
A gravação revelada pelo Metrópoles, que tem cerca de 2 horas e 30 minutos, foi feita na cozinha da casa de Ikeda, na véspera da morte de sua então esposa, mãe da menina. A mulher estava debilitada havia meses, por causa de um câncer.
Sem saber que estava sendo gravado, o coronel tentava fazer a filha admitir que teria contado sobre os abusos para a mãe. Durante a conversa, ele admite ao menos dois estupros, em diferentes situações. Nos dois casos, coloca a culpa na criança, que, segundo ele, seria “curiosa” e “sonâmbula“.
“Eu tinha bebido muito. Você me aparece na lavanderia, no meio do que aconteceu, e curiosa de saber como é que eram as coisas. Então, eu estava suscetível ao que aconteceu. Deixei rolar. Então, como eu falei, eu não me eximo de culpa. Só que, nessa história, a culpa não é só minha. Nunca foi. Tudo bem, você tinha 11 anos de idade, ia fazer 11. Então a sua culpa não é tão grande, porque você estava curiosa”, diz Ikeda em um trecho da gravação.
Em um dos estupros, que não teve a data exata especificada, o coronel diz ter “deixado” a menina manusear seu pênis, fazendo movimentos de masturbação.
“Aí você parava. Ficava um tempinho sem eu fazer nada. Aí você mexia de novo no meu pênis, ele voltava a ficar duro, e você começava de novo. Aí eu: ‘Para, senão vou gozar de novo’. Aí você parava, deixava de novo, dava um tempinho, pegava de novo. Lembra? Se você não quisesse que o negócio continuasse, você simplesmente faria o quê? Deixava eu gozar”, diz o coronel na gravação.
Ouça:
“Golpe”
Em interrogatório prestado em novembro de 2024, Luiz Enrique de Souza Ikeda foi questionado sobre o teor do áudio. Ele afirmou que a gravação feita pela filha em 2017 teria sido um “golpe”.
“Não posso (dizer) que não aconteceu porque aconteceu. Só que eu falo que eu caí, vamos dizer assim, num golpe”, declarou. “E por que que eu falo isso? Como eu estava no pé dela por conta dos namorados, seria uma carta que ela teria na mão para usar contra mim.”
Na oitiva, Ikeda comentou apenas um dos episódios de estupros mencionados no áudio, o da masturbação usando os pés da menina. Ele, no entanto, deu uma versão diferente para o ocorrido, dizendo que a única coisa que fez foi “deixar” a criança com os pés pressionando seu pênis.
“Eu peguei… estava um tanto quanto meio fora de mim. Aí, eu pensei comigo: ‘Vamos ver, vamos ver até onde isso daí vai’. E aí, eu deixei com que ela colocasse o pé dela na minha genitália. Aconteceu. Realmente aconteceu, mas não passou disso”, disse Ikeda.