Emagrecer sem perder músculos é a nova fronteira no tratamento do excesso de peso
A grande revolução das terapias antiobesidade não envolve apenas a perda de peso. Essa etapa, de certa forma, está sendo vencida pelas canetas emagrecedoras. A nova pergunta é mais complexa: que tipo de peso estamos perdendo? Gordura, como desejamos? Ou também músculo, como tememos?
Esse foi o ponto central de um novo estudo que avaliou drogas capazes de preservar a massa magra em meio ao processo de emagrecimento.
Os nomes podem assustar num primeiro momento, mas vamos traduzir tudo.
Essa pesquisa, do laboratório Regeneron, testou um anticorpo monoclonal chamado trevogrumabe, que inibe uma proteína que atua na degradação muscular (a miostatina), com ou sem garetosmabe, outro anticorpo com essa proposta, mas que mira uma substância denominada activina A. Eles foram associados a uma dose semanal de semaglutida 2,4 mg (Wegovy) em pessoas com obesidade.
Os cientistas buscaram analisar o impacto da estratégia na composição corporal dos voluntários acima do peso ao longo de 26 semanas. Para isso, recorreram também a exames sofisticados que apuram a distribuição de gordura e músculo no organismo.
A lógica biológica é elegante. A miostatina e a activina A funcionam como “freios” naturais da massa muscular. Ao bloquear esses caminhos, a hipótese é reduzir a perda de massa magra que costuma acompanhar o emagrecimento.
Nos slides apresentados no congresso da Associação Americana de Diabetes, a semaglutida isolada levou a uma queda maior de massa magra, enquanto a combinação com trevogrumabe, especialmente associada ao garetosmabe, preservou os músculos, inclusive em quem já tinha baixa massa muscular no início.
“A combinação de semaglutida com trevogrumabe ajudou a prevenir cerca de metade da perda de massa magra induzida pela semaglutida, ao mesmo tempo em que aumentou a perda de gordura”, resume Alexander Benchimol, endocrinologista e pesquisador do IEDE e da PUC do Rio de Janeiro.
A combinação tripla com garetosmabe mostrou efeito ainda mais intenso na composição corporal, mas trouxe maior preocupação com tolerabilidade e descontinuação por eventos adversos.
Esse detalhe é crucial. Na medicina, o entusiasmo precisa caminhar de mãos dadas com a prudência. Preservar músculo é desejável, especialmente em idosos, pessoas frágeis ou pacientes com sarcopenia. Mas ainda precisamos saber se essa preservação de massa magra se traduz em benefícios concretos: mais força, melhor função física, menor risco de quedas, melhor qualidade de vida e melhor desfecho metabólico.
Por enquanto, trevogrumabe e garetosmabe não estão disponíveis para uso clínico nessa indicação. São medicamentos experimentais. O estudo recém-apresentado faz parte de um caminho de desenvolvimento, e os próprios autores destacam que novas pesquisas serão necessárias para entender o benefício clínico de longo prazo da preservação de massa magra durante terapias com GLP-1.
Mas já dá para dizer que a era das canetas emagrecedoras está amadurecendo. Não basta mais olhar para a balança. A próxima fronteira será emagrecer melhor: perder mais gordura, preservar músculo e manter a força física.