Entenda porque o mercado reagiu mal à Flávio Bolsonaro
Uma entrevista concedida pelo senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, ao SBT News na tarde de sexta-feira repercutiu entre agentes financeiros e ajudou a pautar as discussões sobre o cenário fiscal brasileiro.
Ao afirmar que não pretende mexer nos pisos constitucionais de saúde e educação e que manteria o salário mínimo corrigido pela inflação, o parlamentar sinalizou uma postura diferente daquela esperada por parte do mercado.
Mercado reage à fala
A reação foi um mercado “emburrado” com o principal candidato da direita e com maiores chances de vencer o presidente Lula nas eleições deste ano. Investidores que apostavam em um discurso mais alinhado a reformas estruturais e contenção de despesas interpretaram as declarações como um indicativo de continuidade em algumas políticas que vêm sendo adotadas nos últimos anos.
A Bolsa brasileira que já vinha de um pregão com menos negócios por causa do feriado nos Estados Unidos, encerrou o pregão praticamente estável, com leve alta de 0,03%, refletindo a cautela dos agentes diante das sinalizações sobre gastos públicos.
Gesto relevante
Para André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, a defesa da manutenção da política de valorização do salário mínimo pode ser vista como um gesto politicamente relevante. “É um ato de coragem, dado o conservadorismo do seu eleitorado”, afirmou.
Segundo ele, a discussão não é simples porque o salário mínimo exerce influência direta sobre a renda de milhões de brasileiros, especialmente os de menor poder aquisitivo, “Quando você opta por não dar aumento do salário real para aposentados e pensionistas, por exemplo, você incorre num problema muito ruim, como fez o ex-presidente Jair Bolsonaro”, lembra.
Qualquer um terá dificuldades para defender cortes
Ao mesmo tempo, Galhardo avalia que qualquer governo eleito terá dificuldades para escapar de um debate mais profundo sobre as contas públicas. “Será muito difícil conduzir uma reforma desse tipo”, observou, ao comentar eventuais mudanças em regras que envolvem benefícios sociais e despesas obrigatórias.
Na visão do economista, o desafio fiscal continuará presente independentemente de quem vencer a eleição.
Temas sensíveis
Para ele, o próximo presidente precisará enfrentar o crescimento das despesas públicas e encaminhar reformas capazes de garantir maior sustentabilidade para as contas do país. “Será preciso encaminhar uma proposta de mudança dos gastos públicos brasileiros para os próximos anos”, afirmou.
Vença quem vencer
Galhardo cita como exemplos temas sensíveis, como os gastos constitucionais com saúde e educação e o avanço das despesas previdenciárias, que continuam pressionando o orçamento federal.
Ele alerta que “Vença quem vencer, será preciso encaminhar uma proposta de mudança dos gastos públicos brasileiros para os próximos anos. Isso requer alterações na Constituição, Por exemplo, dado o crescente desequilíbrio dos das contas previdenciárias”.
Para Flávio é mais difícil
O economista também defende um entrosamento maior com o Congresso. Para ele, o candidato ideal é aquele que terá força política para endereçar um novo ajuste fiscal pelo lado da despesa. Na opinião dele, o assunto é mais espinhos para Flávio do que para Lula “Não será fácil pro Flávio Bolsonaro, pelo discurso mais alinhado e pró-mercado mesmo pra ele, caso seja vencedor no pleito, mas é importante que se faça e que se comece agora”, afirma.
Debate sobre responsabilidade fiscal
O economista também chama atenção para os efeitos dessa realidade sobre a política monetária. Na avaliação dele, perseguir uma meta de inflação de 3% exige a manutenção de juros elevados por um período prolongado, o que aumenta o custo da dívida pública e reduz os incentivos para investimentos produtivos.
O resultado é uma economia que cresce menos, enquanto o debate sobre responsabilidade fiscal permanece no centro das atenções de investidores, empresários e formuladores de políticas públicas.