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Está a Noruega moralmente certa ao celebrar, com seleção, herança viking?

02 de Julho de 2026, 09:38 0 visualizações
Está a Noruega moralmente certa ao celebrar, com seleção, herança viking?

Em publicidade, se chama branding, a criação de, mais do que uma marca, uma identidade forte. A mais bem sucedida campanha de branding na Copa tem sido a da Noruega, com o sucesso espontâneo da “remada viking”, capaz de inspirar imitações até de policiais texanos, e a bem planejada divulgação das fotos dos jogadores caracterizados como o povo guerreiro que surgiu das terras nórdicas, se expandiu e misteriosamente desapareceu da história, há mil anos.

Os escandinavos têm o maior orgulho em se dizer descendentes dos vikings, embora sejam hoje em tudo o seu oposto – pacíficos, ordeiros, igualitários, politicamente corretos e ricos o suficiente para não pegar nada dos vizinhos. Mas não deixa de ser uma contradição, como se, dentro de um milênio, descendentes de alemães se orgulhassem da disciplina e da capacidade militar de um certo exército guiado pela cruz gamada.

“Por que o New York Times está celebrando os escravagistas vikings?”, reclamou o comentarista Gavin Mortimer na Spectator, implicando com a paixão que o jornalão americano vem demonstrando por todas as coisas relacionadas à seleção da Noruega.

Os vikings não apenas remavam nos navios em que conquistaram o domínio do mar, do Norte da Europa até o Mediterrâneo, “mas também estupravam, saqueavam, assassinavam e escravizavam”, reclamou Mortimer. “Do século VIII ao XI, os vikings aterrorizaram a Europa, desde as ilhas britânicas até a Sicília”. Cerca de um milhão de ingleses têm traços de DNA dos invasores, há provas arqueológicas da escravização de irlandeses e do extermínio de populações inteiras na Escócia.

PADRÃO INVEJÁVEL

Mortimer pergunta até qual seria a reação do New York Times se torcedores espanhóis fizessem a “remada de Colombo”, o descobridor que a esquerda americana ama odiar, tendo derrubado cerca de 30 estátuas dele em território americano, para desgosto dos ítalo-americanos que escolheram o compatriota genovês (embora financiado pela Espanha) como símbolo de suas origens.

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Um milênio deveria ser tempo suficiente para colocar tudo no contexto histórico – e aprender a não julgar o passado por valores do presente, sejam os envolvidos navegadores e colonizadores, sejam guerreiros loiros com capacetes de cornos e juramentos a Odin.

As fotos dos jogadores noruegueses como guerreiros vikings foram uma ideia brilhante da associação de futebol do país, provavelmente inspirada por sua figura mais conhecida, Erling Haaland. Ele já havia feito fotos a caráter – parece ter nascido para isso – e sugeriu o mesmo fotógrafo, o escocês David Yarrow.

A produção foi profissional, com objetos autênticos, como armas, escudos e até barcos. O clima nórdico foi dado pelo fjord e a escolha de um filtro cinzento, no espírito tempestade. Ficou tudo perfeito, inclusive a participação do jogador Antonio Nusa, de origem nigeriana e totalmente integrado ao espírito da coisa.

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Dá até uma certa invejinha. Por que torcedores de diferentes países não estão fazendo alguma dancinha brasileira no lugar da remada viking?

Mais invejável ainda é o padrão de vida da Noruega, com um PIB per capita de 105 mil dólares, turbinados pela exploração do petróleo no Mar do Norte, com recursos fabulosos administrados com honestidade nórdica por um fundo soberano.

Isso sim legitimiza o desejo de se autocelebrarem como herdeiros dos vikings – sem a parte feia, suja e violenta que todas as histórias do mundo carregam.

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