EUA permitem que Irã volte a vender petróleo em dólar pela primeira vez em décadas
Os Estados Unidos autorizaram o Irã a voltar a comercializar petróleo em dólares pela primeira vez em décadas, em uma mudança significativa na política de sanções adotada contra Teerã.
A decisão, anunciada pelo Departamento do Tesouro americano nesta segunda-feira (22), suspende por dois meses restrições que limitavam a exportação de petróleo iraniano e o acesso do país ao sistema financeiro internacional.
A medida faz parte das negociações em curso entre Washington e Teerã para consolidar um cessar-fogo após meses de tensão militar na região.
O acordo também está ligado à reabertura do Estreito de Hormuz, rota estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, e às discussões sobre o programa nuclear iraniano.
Alívio econômico para Teerã
A autorização permite que compradores paguem pelo petróleo iraniano diretamente em dólares, moeda dominante no comércio internacional de energia. Na prática, a mudança facilita o retorno de receitas ao sistema bancário iraniano e reduz a dependência de mecanismos alternativos utilizados para contornar sanções.
Desde a reimposição de restrições americanas nos últimos anos, o Irã vinha recorrendo a uma rede de intermediários, empresas de fachada e navios operando fora dos sistemas convencionais de rastreamento para exportar petróleo, principalmente para refinarias chinesas.
Segundo especialistas em sanções internacionais, a nova autorização representa uma ruptura relevante com a estratégia adotada por Washington ao longo das últimas duas décadas.
Além dos pagamentos em dólar, a suspensão temporária das sanções também permite que embarcações anteriormente incluídas em listas restritivas participem legalmente do comércio de petróleo iraniano durante o período de vigência da medida.
Negociações avançam em torno do programa nuclear
O anúncio ocorreu horas depois de o vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmar que o governo iraniano concordou em permitir o retorno de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
A presença dos técnicos é considerada fundamental para verificar o estado das instalações nucleares iranianas após ataques realizados por Estados Unidos e Israel no ano passado.
As inspeções são um dos pontos centrais das negociações. Washington busca limitar a capacidade iraniana de enriquecer urânio em níveis próximos aos necessários para a produção de armas nucleares.
O governo iraniano, por sua vez, insiste que seu programa possui fins pacíficos e exige a retirada gradual das sanções econômicas.
Até o momento, Teerã não confirmou oficialmente as declarações americanas sobre a retomada das inspeções. Setores mais conservadores do regime demonstraram resistência à possibilidade de ampliar o acesso dos inspetores internacionais às instalações nucleares do país.
Hormuz volta ao centro das preocupações
Outro tema prioritário nas negociações é a navegação pelo Estreito de Hormuz. A passagem marítima conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e é considerada uma das rotas energéticas mais importantes do planeta.
O bloqueio temporário da região durante a escalada do conflito provocou forte preocupação nos mercados internacionais e elevou os riscos de interrupções no fornecimento de petróleo.
Segundo autoridades americanas, foi criado um mecanismo permanente de comunicação entre Estados Unidos e Irã para reduzir o risco de novos incidentes na área.
Dados de monitoramento marítimo indicam que o tráfego de navios começou a se recuperar nos últimos dias, embora ainda permaneça abaixo dos níveis observados antes do conflito.
Mercado observa efeitos da reaproximação
A flexibilização das sanções ocorre em um momento em que os mercados acompanham com atenção qualquer sinal de aumento da oferta de petróleo.
O Irã possui algumas das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo e produz atualmente cerca de 3 milhões de barris por dia.
Analistas avaliam que um retorno mais amplo do petróleo iraniano ao mercado internacional poderia contribuir para reduzir pressões sobre os preços da commodity nos próximos meses.
Ao mesmo tempo, a decisão deve enfrentar resistência de setores políticos nos Estados Unidos e de aliados regionais de Washington, que defendem a manutenção da pressão econômica sobre o regime iraniano até que haja avanços concretos nas negociações nucleares.
O acordo anunciado nesta segunda-feira sugere que a Casa Branca aposta em incentivos econômicos para obter concessões diplomáticas de Teerã, em uma estratégia que marca uma mudança importante em relação à política de isolamento adotada nos últimos anos.