Ex-juiz dá sua sentença sobre cena de julgamento em ‘Quem Ama Cuida’
O julgamento de Adriana (Leticia Colin) em Quem Ama Cuida chama a atenção há dois capítulos consecutivos. Primeiramente, mostra que um tribunal não é apenas um local onde provas são apresentadas, mas também um ambiente de disputa de narrativas. Ao longo da trama, personagens tentam influenciar a percepção dos fatos, construir versões convenientes e enfraquecer a credibilidade dos adversários. A persuasão não acontece apenas por meio de argumentos jurídicos, mas também pela forma como cada personagem se posiciona diante dos acontecimentos.
Advogado e ex-juiz de direito, Samer Agi analisa a pedido da coluna GENTE, como a trama traz aspectos jurídicos para a ficção.
“Um dos aspectos mais relevantes do julgamento é a tentativa de direcionar a opinião das pessoas antes mesmo da conclusão do processo. Personagens envolvidos na acusação procuram reforçar determinadas interpretações dos fatos enquanto minimizam informações que poderiam favorecer Adriana. Esse movimento revela uma característica comum dos conflitos de alta exposição: a disputa não é apenas pela verdade dos acontecimentos, mas pela narrativa que será aceita como verdadeira. Quem consegue contar a história de maneira mais convincente geralmente conquista uma vantagem importante. A novela também retrata como a credibilidade é um dos ativos mais valiosos dentro de um julgamento. Muitas vezes, a decisão das pessoas sobre quem parece estar falando a verdade não é construída apenas pelas provas apresentadas, mas pela confiança transmitida pelos envolvidos. A postura, o tom de voz, a coerência dos argumentos, o controle emocional e até a linguagem corporal influenciam a percepção de quem acompanha o caso. Quando um personagem demonstra segurança e consistência, tende a ser visto como mais confiável. Quando apresenta contradições ou excesso de agressividade, pode gerar o efeito contrário”, diz ele, fundador do Ser Mais Criativo (escola de cultura e comunicação) e cofundador do CP Iuris (curso preparatório para concursos jurídicos).
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Outro ponto interessante, apontado pelo advogado, é a presença de manobras e estratégias para influenciar o próprio andamento do processo. Na trama, vê-se tentativas de enfraquecer a defesa, dificultar determinadas atuações e criar situações que alterem a percepção sobre os envolvidos. A seu ver, isso reforça uma lição importante sobre comunicação estratégica: muitas vezes, convencer não depende apenas do que é dito no momento decisivo, mas de todo o trabalho de construção de imagem realizado antes dele. Quem chega ao julgamento com uma reputação fragilizada precisa enfrentar uma barreira muito maior para ser ouvido.
“A repercussão do caso também evidencia a força do chamado ‘tribunal da opinião pública’. Antes mesmo da decisão formal, os personagens e os espectadores já começam a formar julgamentos próprios sobre quem está certo ou errado. Por isso, o julgamento de Adriana acaba sendo um excelente exemplo de como oratória, persuasão e construção de narrativa exercem papel fundamental em situações de conflito. Evidentemente, uma decisão judicial deve se apoiar em provas e fundamentos legais. No entanto, as provas não falam sozinhas: elas precisam ser explicadas, contextualizadas e conectadas a uma história coerente. A novela mostra que, em qualquer disputa, quem comunica melhor sua versão dos fatos tem mais chances de conquistar confiança. E, quando confiança entra em cena, a capacidade de influência passa a ser tão importante quanto os próprios argumentos apresentados”, conclui.