Executiva de banco é investigada por maus-tratos a gêmeas adotadas
Uma executiva do Bradesco que comandou o E-agro, plataforma digital da instituição voltada ao agronegócio, é investigada pela Polícia Civil de São Paulo sob suspeita de maus-tratos contra as filhas gêmeas adotivas. Nadége Saad, de 45 anos (imagem em destaque) foi apontada por uma ex-funcionária da família como responsável por submeter as meninas a restrições alimentares, castigos e tratamento desigual em relação aos demais filhos do casal.
A coluna apurou que Nadége deixou o comando do E-agro em 8 de julho, após três anos à frente da operação. Ela foi substituída por Thaís Bueno, mas permaneceu no Bradesco, onde assumiu outras funções.
O relato, obtido pela coluna, foi formalizado em 17 de julho no 78º DP (Jardins). No registro da Polícia Civil, Nadége aparece como investigada e as duas crianças, atualmente com 4 anos, como vítimas. A ocorrência foi classificada como maus-tratos e foi transferida para a 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Um inquérito policial, que segue em sigilo, foi instaurado.
Nagége foi procurada pela coluna, na manhã dessa terça-feira (11/8). O espaço foi aberto para ela ou um advogado indicado se manifestarem.
A Secretaria da Segurança Pública e a Polícia Civil também foram questionadas sobre a atual situação as gêmeas. Afirmaram que o caso é investigado e segue em sigilo, sem dar mais detalhes.
Ambiente mudou com chegada das gêmeas
A ex-funcionária, que teve a identidade preservada no documento policial, afirmou ter trabalhado durante anos na residência da família. Segundo ela, o ambiente era aparentemente harmonioso antes da adoção das gêmeas, mas teria mudado após a chegada das crianças.
A testemunha disse que, menos de seis meses depois da adoção, começou a perceber hematomas com frequência nas meninas. Os responsáveis, de acordo com o depoimento, atribuíam as marcas a quedas.
A funcionária sustentou, porém, que as lesões surgiam quando as crianças permaneciam sem babás e sob os cuidados dos pais. Segundo ela, a residência chegou a contar entre quatro e seis profissionais para cuidar das crianças.
Uvas e castigo na escada
Um dos episódios relatados à polícia ocorreu depois que uma das gêmeas pegou uvas na geladeira para comer.
Segundo a ex-funcionária, a menina foi castigada pela mãe adotiva e obrigada a subir e descer repetidamente uma escada estreita da residência. Parte da estrutura, ainda de acordo com o depoimento, não possuía corrimão.
O registro policial informa que a testemunha considerava a escada um risco de queda para uma criança da idade das meninas.
A ex-funcionária afirmou também que Nadége dizia às filhas que aquela “não era a casa delas” e que a comida existente no imóvel não lhes pertencia. Por isso, segundo o relato, elas não poderiam pegar alimentos sem autorização.
Meia banana para duas
A alimentação ocupa parte relevante do depoimento prestado à Polícia Civil.
A testemunha afirmou que havia tratamento diferente entre as gêmeas e os filhos biológicos da família. Enquanto estes poderiam comer pizza, batata frita e outras guloseimas, as meninas adotadas teriam uma dieta muito mais restrita.
Em determinadas ocasiões, segue o relato, as duas chegaram a receber meia banana para cada uma.
A funcionária disse ainda que, em alguns dias, após comerem na escola durante a tarde, as meninas não recebiam outra refeição até a manhã seguinte. Segundo ela, babás chegaram a oferecer alimentos diferentes escondidas dos responsáveis por acreditarem que as crianças estavam com fome.
No registro policial, a testemunha afirmou que as gêmeas “frequentemente passavam fome”.
Os pais adotivos, segundo ela, justificavam as limitações pela existência de restrições alimentares. A depoente sustentou que, nas ocasiões em que as funcionárias deram outros alimentos às crianças, não observaram reações adversas.
Hematomas e marcas
A ex-funcionária também relatou ter visto hematomas, equimoses (manchas roxas) e outras marcas no corpo das crianças.
Ela mencionou furos nos braços, pernas e rosto, além de uma lesão que considerou semelhante a uma mordida na região do nariz. O registro policial, isoladamente, não contém laudo médico que determine a origem dessas marcas.
Uma das meninas, segundo a depoente, também apresentava tremores frequentes e roía as unhas. A testemunha afirmou que a mãe adotiva atribuía esse comportamento à história da mãe biológica da criança.
A ex-funcionária disse ainda ter tomado conhecimento de que outras trabalhadoras da residência eram orientadas a produzir cartas manuscritas afirmando que não haviam visto agressões contra as meninas.
A denúncia foi formalizada à Polícia Civil em 17 de julho.




