‘Fico feliz que ela não seja sexualizada’, diz diretor de ‘Supergirl’ a VEJA
Estreia da semana, Supergirl mostra uma nova versão da personagem-título ao mundo, com cabelo desgrenhado, camiseta surrada e gosto por sistemas solares regidos por astros vermelhos, que as despem dos superpoderes e permitem que a jovem de 23 anos beba até cair. Distante do código moral da Mulher Maravilha ou da disciplina militar da Capitã Marvel, a heroína aqui é temperamental, imperfeita, descolada e afoga as mágoas ora por diversão, ora como forma de aplacar a perda dos pais e a destruição de seu planeta natal. Sua única companhia é o cachorro Krypto, que compartilha com ela a mesma energia caótica, até que um bandido vilanesco envenena o pet e força a loira a cruzar o universo em busca de vingança e um antídoto.
A personagem se encaixa perfeitamente na filmografia do australiano Craig Gillespie, que também dirigiu longas sobre outras mulheres subversivas: Eu, Tonya (2017), dedicado à patinadora de gelo envolvida em um ataque contra uma rival, e Cruella (2021), que reimagina a vilã de 101 Dálmatas como uma estilista punk à la Vivienne Westwood. Em entrevista a VEJA, o cineasta pontuou a proximidade entre os projetos e destrinchou seu interesse pela super-heroína, assim como pela atriz Millie Alcock:
Muitos enxergam a Supergirl como a mera versão feminina do Superman. O quão surpresos diria que essas pessoas ficarão com o filme? Eu nunca pensei nela como a versão feminina de alguém. Li o roteiro sem qualquer contexto prévio, porque não tinha lido a HQ Mulher do Amanhã. Duas páginas depois, eu já havia sido totalmente convencido a fazer este filme. Há um alcance muito grande, desde aquela cena de abertura incrivelmente sombria, até a introdução da personagem com um tom engraçado, delicado e moralmente ambíguo. Me apaixonei de cara por Kara Zor-El. Ela não pede desculpas por ser quem é, e a forma como lida com tantos traumas ao longo do filme a torna única e original.
Como avalia a diferença entre esse projeto e as super-heroínas do passado? Tudo sobre essa versão da personagem é contracultural. Fico feliz que ela seja nada sexualizada, nem tenha cabelo feito ou maquiagem na cara. Ela é uma bagunça ambulante, não tem pretensões, nem nada a provar. Só quer ficar sozinha e tomar as rédeas da própria vida.
Esse comportamento remete a outros filmes seus. Por que se interessa por mulheres espinhosas? Elas são azaronas à margem da sociedade. Supergirl toma decisões das quais se pode discordar, mas ainda quero que as pessoas sintam empatia por ela. Além disso, é raro ver uma super-heroína imperfeita. Normalmente, esse privilégio é do Wolverine ou do Homem de Ferro.
Por que Millie Alcock era certa para o papel? Gostei da ideia de ter um rosto novo, sem ideias já formadas pelo público. Ela também consegue ir do drama à comédia sem esforço e é naturalmente descolada.
Além disso, ela teve que aprender a falar idiomas inventados para o filme. Como foi esse processo? Isso é um parâmetro de atuação que deve ser valorizado. Ela teve que aprender vários idiomas, mas o que ela mais precisou estudar foi o kryptoniano, junto de uma preparadora de dialeto que lhe ensinava foneticamente. Certo dia, Millie chegou ao set e precisava gravar uma cena de cerca de quatro páginas com David Krumholtz, que interpreta o pai de Kara, e os dois me deixaram estonteado. Você imaginaria que ela era fluente nesse idioma a vida toda. Ela simplesmente entrou direto na cena, com toda a emoção esperada, e repetiu aquilo perfeitamente várias vezes. Eu conseguia dar direções e sugerir certas ênfases, e ela conseguia atuar como se em inglês.
James Gunn defende que cada filme deste universo seja feito com total liberdade criativa, de forma independente dos outros longas em desenvolvimento. Isso de fato acontece nos bastidores? Sim, é incrível. Quando o conheci, perguntei o quanto precisava me ater ao universo de Superman e ele me respondeu que isso não era uma questão. Ele enxerga esses filmes como histórias em quadrinhos, que são ditadas pelos estilos próprios do roteirista e do ilustrador responsáveis. Este filme, por acontecer fora da Terra, era como uma tela em branco. Não estamos pegando nada emprestado de outros títulos do universo. Foi como começar do zero, da melhor maneira possível.
Acompanhe notícias e dicas culturais nos blogs a seguir:
- Tela Plana para novidades da TV e do streaming
- O Som e a Fúria sobre artistas e lançamentos musicais
- Em Cartaz traz dicas de filmes no cinema e no streaming
- Livros para notícias sobre literatura e mercado editorial