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"Isca de ódio": método da direita em universidades tem plateia cativa

28 de Junho de 2026, 05:15 0 visualizações

Políticos e influenciadores de direita têm usado universidades públicas de São Paulo para gravar vídeos de confronto com estudantes e faturar eleitoralmente nas redes sociais. Segundo eles, a prática busca democratizar o debate no ambiente universitário, que estaria “dominado por uma minoria organizada de esquerda”.



Cientistas políticos consultados pelo Metrópoles alertam que esse método de publicação, chamado “isca de ódio”, se aproxima mais da lógica do caos, da qual grupos radicais se alimentam, do que da promoção do debate político.

Os vídeos seguem um padrão simples: esses políticos disparam uma pergunta provocadora para os estudantes, com assuntos como aborto, religião, sexualidade, registram as reações e o “corte” transforma o conflito em conteúdo viral nas redes sociais.

O vereador Lucas Pavanato (PL), de 28 anos, é um dos políticos que explodiram nas redes com vídeos gravados na Universidade de São Paulo (USP). Pavanato acumula 5 milhões de seguidores no Instagram e foi o vereador eleito com mais votos no Brasil.

Nos vídeos, o parlamentar faz diversas indagações polêmicas aos alunos, tais como: “Aborto é assassinato sentado” e “Me prove que o governo Lula é bom e ganhe 1.000 reais”. As provocações já geraram episódios de violência e até necessidade de indenização, quando o político precisou pagar R$ 8 mil por danos morais a uma estudante, por usar de forma indevida a imagem dela em um vídeo.

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Equipe de Lucas Pavanato em ato na USP
Lucas Pavanato é apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro
Lucas Pavanato monta banca na Usp
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Lucas Pavanato monta banca na Usp

Reprodução
Equipe de Lucas Pavanato em ato na USP
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Equipe de Lucas Pavanato em ato na USP

Reprodução/Redes sociais
Lucas Pavanato é apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro
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Lucas Pavanato é apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro

Reprodução / Redes sociais

Pavanato conta que vê as universidades públicas como ambientes onde a pluralidade de ideias foi suprimida pelos Diretórios de Estudantes e departamentos de Humanas. Segundo ele, o seu intuito principal com os vídeos é propor discussões e incentivar a ocupação conservadora nesses espaços.

“A faculdade pública, a faculdade estatal, ela é financiada com o dinheiro do imposto de todo cidadão, então ela não deveria ser um privilégio de uma minoria de esquerda. Por que tem que ser um privilégio de uma minoria de esquerda? Eu posso ter alunos conservadores, deveria poder ter alunos conservadores nos cursos de História, nos cursos de Filosofia, nos cursos de Letras, e eu acho que esse espaço precisa ser ocupado”, teoriza.

Para a cientista política e professora Isabela Kalil, cada vez mais, jovens de direita têm utilizado dessa estratégia para ascender eleitoralmente e “educar” novas gerações de estudantes.

“Muitos eleitores desses políticos estão na universidade também ou têm que interagir com o público universitário. Então, eles dão respostas e discursos que, de uma certa maneira, se tiver um universitário que se identifica como uma pessoa de direita, que assiste aos vídeos, ele aprende o que falar”, afirma Kalil.

Segundo ela, esses políticos e influenciadores têm a intenção de viralizar, independentemente se repercutem de forma positiva ou negativa. O foco na própria “bolha virtual” é a chave.

“Eu estou pouco me lixando se meia dúzia de jornalistas não vai gostar, se militantes de esquerda vão vender uma coisa que não é verdade. Nos meus vídeos sempre está claro o que aconteceu, e eu sempre deixo bem claro para o meu público o que está acontecendo. As pessoas sempre estão do meu lado”, diz Lucas Pavanato ao Metrópoles.

Montagem ou vocação?

O Guarda Civil Municipal (GCM) e influenciador Victor Ruiz é outro que posta vídeos indagando estudantes com assuntos polêmicos nas redes sociais. Um conteúdo dele na USP registrou mais de 2 milhões de curtidas e 125 mil comentários no Instagram.

Apesar do método ser semelhante ao de Pavanato, Victor afirma que os seus vídeos não têm pretensão eleitoral, ao contrário de outros influenciadores e políticos que se aproveitariam dessas pautas para se autopromover, segundo conta. Para ele, seus vídeos são uma “vocação”.

“Existem outros influenciadores, políticos que se aproveitam dessas pautas, porque sabem que converte em audiência, e a audiência pode ser convertida para fins eleitorais. Mas no meu caso, quando se entende o histórico que eu tenho de vida profissional, e de tudo que eu já plantei na minha carreira, as pessoas conseguem entender que é autêntico, e que não é algo que é montado”, diz em conversa com a reportagem.

Independente do propósito dessas visitas, fato é que o político ou aspirante a parlamentar nunca está sozinho. Esses vídeos são roteirizados, gravados e editados. Essas pessoas investem milhares de reais com equipamentos, equipe e transporte para colocar no ar um espetáculo.

No Brasil, esse modelo começou a ser praticado por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), com Arthur do Val e Kim Kataguiri, em 2014. Mais recentemente, o ativista estadunidense Charlie Kirk serviu de inspiração para uma nova geração da direita brasileira por comparecer em faculdades para falar sobre pautas polêmicas e provocativas.

A cientista política Juliana Fratini aponta que, embora a direita tenha mais engajamento nas redes sociais, a esquerda também adota essas práticas nas universidades, “e isso promove a democracia dentro dos espaços públicos”. No entanto, ela destaca que a abordagem agressiva não deveria ser o caminho.

“Eu acredito que a postura deles deveria ser outra, não só uma postura de colocar o celular na cara das pessoas, e falar assim: ‘Estou te filmando, estou te filmando, vou mostrar o que você está fazendo’. Porém, a indignação e a violência, elas sempre trazem likes, elas sempre trazem curiosidade, as pessoas querem ver”, afirma a professora.

Universidade é só para estudar?

Entre esses políticos e influenciadores, o discurso é o mesmo: a universidade é “lugar de estudar”, somente estudar. Pavanato e Victor Ruiz vêem as faculdades públicas como locais vandalizados, onde o patrimônio seria destruído e “o dinheiro público usado para orgias e festas” em vez de espaços de produtividade acadêmica.

“Eles estão sendo confrontados porque estão fazendo mau uso do dinheiro público, estão vandalizando o espaço, cometendo até crimes. Muitas vezes flagrados utilizando de entorpecentes para promover um entretenimento totalmente contraditório, com orgias e coisas extremamente maléficas à sociedade. O espaço público não foi criado para isso, é para contemplar a sociedade com fins de produtividade e não para os seus próprios fins”, critica o influenciador.

Pavanato vai na mesma linha. “Dentro do ambiente universitário da USP, por exemplo, nas noites de sextas-feiras, o que acontece são baladas, onde circulam drogas e os alunos fazem sexo. E aí eu te pergunto, é para isso que as pessoas pagam imposto? É para isso que a gente tem faculdade pública? Ou a faculdade pública e o ambiente de ensino devem ser um ambiente para a gente discutir ideias, evoluir em termos de pensamento?”, completa o vereador.

Os estudantes, por outro lado, destacam que o conhecimento é produzido a partir de múltiplos espaços e esferas dentro da universidade. “É a partir da socialização, dos espaços de debate, que a universidade se conecta também com a sociedade”, pontua Pedro Chiquitti, diretor do DCE da USP.

O estudante reforça que esse método político “tem imediato interesse eleitoral” e que a ofensiva da extrema direita ocorre justamente no momento em que as universidades públicas “estão sendo tomadas por outros classes sociais, com mais estudantes negros e cotistas do que nunca“.

“No momento em que esse perfil da universidade muda, é justamente o momento que a extrema direita e a elite passam a desqualificar cada vez mais a universidade. O que o Pavanato faz é criar uma caricatura que busca afastar jovens de escolas públicas que acompanham o seu conteúdo da universidade pública”, concluiu.

O que diz a USP

Procurada pela reportagem, a Universidade de São Paulo afirmou que “A USP é uma instituição pública, laica e plural, cujos campi são espaços abertos à sociedade para a liberdade de expressão e para o debate de ideias, pilares fundamentais do ambiente acadêmico e do Estado Democrático de Direito”.

A universidade acrescentou que atua estritamente dentro dos limites de sua competência legal e que a Guarda Universitária não tem poder de polícia, atuando de forma preventiva e buscando a mediação de conflitos. “Como instituição pública, a USP não proíbe a entrada de cidadãos específicos em seus espaços, a menos que haja determinação judicial”, diz a instituição.

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