Início / Jovens veem IA no trabalho como oportunidade em …

Jovens veem IA no trabalho como oportunidade em vez ameaça, diz pesquisa

24 de Junho de 2026, 09:13 1 visualizações
Jovens veem IA no trabalho como oportunidade em vez ameaça, diz pesquisa

Muitas pesquisas a análises recentes apontam jovens trabalhadores em profissões de entrada como mais vulneráveis à substituição por inteligências artificiais. E o que é que os próprios integrantes da geração que chega agora ao mercado acha sobre a ideia de conviver com as máquinas?

Um estudo recente mostra que talvez os nascidos no século XXI lidem com isso melhor do que parece para os profissionais mais experientes.

Trata-se do levantamento Jovens e IA, realizado pelo Espro (Ensino Social Profissionalizante), instituição que atua na inserção profissional de adolescentes e jovens em vulnerabilidade social. Foram ouvidos 3.444 aprendizes em todo o Brasil entre maio e junho de 2026.

Os achados do estudo vão na contramão do que muitos gestores projetam sobre essa geração.

Para 64% deles, a inteligência artificial aparece mais como oportunidade do que como ameaça na hora de entrar no mercado de trabalho. Quando se separa o entusiasmo total, 13% chegam a classificá-la como oportunidade plena, enquanto só 2% a tratam como ameaça absoluta.

Continua após a publicidade

O levantamento sinaliza que esse otimismo tem pé no chão, porque os jovens sabem o que as IAs podem fazer no lugar deles. Inclusive que poderiam perder uma vaga para máquinas. Mas não enxergam a tecnologia como sentença de exclusão: 78% dos entrevistados admitem que a IA já daria conta de ao menos parte das tarefas que executam hoje, e a percepção de risco é bem distribuída.

Perguntados sobre o quanto a tecnologia conseguiria fazer no lugar deles, 38% citaram a parte burocrática, 30% apontaram metade do trabalho e 10% acham que a máquina assumiria a maior parte. Apenas 13% responderam que ela não faria nada. “A pesquisa mostra que o jovem não está negando a transformação. Ele sabe que a IA muda tarefas, processos e critérios de competitividade, mas lê esse movimento como parte do jogo”, afirma Alessandro Saade, superintendente executivo do Espro.

Esse é o ponto que mais interessa a quem contrata. 87% dos ouvidos se dizem parcial ou totalmente confortáveis em disputar uma vaga num ambiente que exige operar ferramentas de IA, e 85% já recorrem a essas ferramentas por conta própria em tarefas escolares ou profissionais. Quer dizer, a geração que (na nossa expectativa de pessoas nascidas no século XX) deveria estar paralisada pelo medo, na prática, demonstra estar mais preparada para o batente.

Continua após a publicidade

O nó aparece em outro lugar. Apenas 32% afirmam que a escola ou o curso técnico os preparou de fato para lidar com a tecnologia. Outros 34% dizem ter aprendido só o básico e sentem falta de orientação sobre uso estratégico, e 16% avaliam que a formação não ensina o que precisam. Some a isso o fato de que, entre os que já usam IA por conta própria, 51% se limitam ao feijão com arroz, e o desenho fica completo.

Há vontade de sobra e repertório de menos, o que traz a conversa para um elemento que estudo na minha pesquisa de doutorado e sempre menciono aqui, que é o conceito de literacia generativa. Ou seja, ensinar as pessoas a detecta o potencial sócio-econômico das inteligências artificias (bem como suas limitações e ameaças) e ser capaz de tomar decisões em favor próprio que envolvam essas tecnologias.

O superintendente Saade afirma que o diferencial do letramento em IA não está nesse ou naquele modelo, na inovação da vez. “A empregabilidade do jovem não será definida apenas por saber usar uma ferramenta específica, porque elas mudam rapidamente.” O que sustenta a carreira, na leitura dele, é a combinação de curiosidade, pensamento crítico, comunicação e capacidade de aplicar a tecnologia a problemas reais.

Continua após a publicidade

Quem convive com pessoas muito jovens talvez não se surpreenda com a visão delas quanto à tecnologia, e considere mais proveitoso o que ela traz para o radar dos gestores: quem ainda trata a chegada da IA como uma queda de braço entre bloquear e liberar o uso está brigando com um problema que já passou. As novas gerações não precisam ser convencidas a aderir. O que falta é alguém que transforme esse improviso em método, com regras claras, supervisão e uma noção mínima de quando a máquina ajuda e quando ela atrapalha.

───────────────────────────────────────────────

Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda

Publicidade

Veja Também

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar.

Deixe seu Comentário

Os comentários passam por moderação antes de serem publicados.