Justiça de SP aprova recuperação judicial da dona da Tok&Stok e da Mobly
A Justiça de São Paulo aprovou o processamento do pedido de recuperação judicial do Grupo Toky, holding que controla as varejistas Tok&Stok e Mobly. A decisão, proferida pela 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da capital paulista, permite que a empresa negocie suas dívidas com credores enquanto mantém as operações em funcionamento.
O grupo informou ao mercado que a medida abrange a holding e suas subsidiárias e faz parte de um plano para reorganizar um passivo superior a R$ 1 bilhão.
A recuperação judicial suspende temporariamente cobranças e execuções contra a companhia, abrindo espaço para a elaboração de um plano de pagamento que precisará ser aprovado pelos credores.
Fusão não foi suficiente para reverter crise
A decisão ocorre menos de dois anos após a fusão entre Tok&Stok e Mobly, anunciada em 2024 como uma tentativa de criar uma das maiores plataformas de móveis e decoração do país.
A operação deu origem ao Grupo Toky e tinha como objetivo gerar ganhos de escala, integrar operações físicas e digitais e reduzir custos em um setor que vinha sofrendo com a desaceleração do consumo.
Na época, analistas avaliavam que a combinação dos negócios poderia fortalecer as empresas diante do avanço de concorrentes como a MadeiraMadeira e dos marketplaces de grandes plataformas de comércio eletrônico.
Os resultados, porém, ficaram abaixo das expectativas. Apesar das iniciativas de integração e corte de despesas, o grupo continuou acumulando prejuízos e ampliando seu endividamento.
No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 55,2 milhões.
Juros altos atingem setor de móveis
Em seu pedido à Justiça, o Grupo Toky atribuiu parte das dificuldades ao cenário macroeconômico.
O setor de móveis está entre os mais sensíveis ao custo do crédito porque depende fortemente de compras parceladas e do mercado imobiliário. Com juros elevados e maior cautela dos consumidores, itens considerados não essenciais costumam ser adiados pelas famílias.
Além disso, o aumento do comprometimento da renda com dívidas e a desaceleração do crédito ao consumo reduziram a demanda por produtos de maior valor agregado, como móveis e artigos de decoração.
Segundo a empresa, a combinação desses fatores afetou as vendas e agravou problemas de liquidez.
Estoques e dívida pressionaram caixa
A companhia também relatou dificuldades operacionais relacionadas aos níveis de estoque, o que teria comprometido a capacidade de atender à demanda em determinados períodos.
Ao mesmo tempo, negociações com credores para reestruturar o passivo não foram suficientes para conter o crescimento das obrigações financeiras.
“O alto endividamento do grupo persiste e vem se agravando”, afirmou a empresa quando protocolou o pedido de recuperação judicial, em maio.
Pouco antes da solicitação, a companhia informou que fundos administrados pela SPX Private Equity negociavam a venda integral de suas participações no grupo, movimento que evidenciou a busca por alternativas para reforçar a estrutura financeira.
Recuperações judiciais batem recorde
O caso da Tok&Stok e da Mobly se soma a uma onda de recuperações judiciais que tem atingido empresas brasileiras desde o ciclo de alta dos juros iniciado em 2021.
Dados da Serasa Experian mostram que 2.466 empresas entraram em recuperação judicial em 2025, o maior número da série histórica iniciada em 2012.
Especialistas apontam que a combinação de crédito mais caro, crescimento econômico moderado e aumento da seletividade dos bancos elevou a pressão sobre companhias que já operavam com margens apertadas.
Nos últimos anos, empresas dos setores de varejo, construção civil, agronegócio e tecnologia recorreram ao instrumento para renegociar dívidas e evitar a falência.
Desafio será recuperar rentabilidade
Agora, o principal desafio do Grupo Toky será convencer credores de que a operação tem condições de voltar a gerar caixa suficiente para sustentar o negócio no longo prazo.
A empresa ainda possui marcas reconhecidas no mercado brasileiro de móveis e decoração e mantém uma presença relevante tanto no comércio eletrônico quanto em lojas físicas.
A recuperação judicial, contudo, evidencia as dificuldades enfrentadas por um segmento que prosperou durante a pandemia, mas que passou a conviver com a retração do consumo, a alta dos juros e uma concorrência cada vez mais intensa.