Libras, Estrela de Davi e honrarias: o cenário escolhido por Michelle Bolsonaro em vídeo que critica Flávio
25 de Junho de 2026, 15:56
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'Minha prioridade agora não são candidaturas', diz Michelle em resposta a Flávio Bolsonaro Em vídeo publicado nessa quarta-feira (24), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro fez críticas à condução política do Partido Liberal (PL) no Ceará e expôs divergências internas que alcançam até mesmo integrantes da família Bolsonaro. Mas, além do conteúdo das declarações, a composição visual escolhida para a gravação chamou atenção. Os elementos posicionados no cenário funcionam como reforço simbólico de valores e pautas que marcam a trajetória pública de Michelle, especialmente junto ao eleitorado conservador e evangélico. Michelle publicou vídeo em suas redes sociais Reprodução Para Rafael Cortez, cientista político, os itens no cenário reforçam um personagem político associado à Michelle. "A questão das Libras foi uma marca dela enquanto primeira-dama, a questão do vínculo dela com uma religião, marcadamente da fé evangélica". "A política tem elementos estéticos trazidos por meio da imagem. A mensagem [dos elementos do vídeo] me parece reforçar o personagem político de Michelle, que opera nessa zona de confluência entre religião e política", analisa Cortez. Segundo o especialista, os itens trazem uma mensagem mais ampla do que apenas o diagnóstico político sobre acordos políticos do PL no Ceará. Veja os elementos: Elementos no vídeo de Michelle Bolsonaro são referências para o campo conservador, segundo especialista Dhara Pereira - Arte/g1 Libras e Israel sobre a mesa Sobre a mesa onde a ex-primeira-dama apoia as mãos, um dos objetos de maior destaque é uma escultura dourada reproduzindo o gesto "Eu te amo" em Libras (Língua Brasileira de Sinais). A peça remete diretamente à atuação de Michelle em defesa da comunidade surda, uma das principais bandeiras que ela abraçou durante a passagem pelo Palácio do Planalto. A primeira-dama Michelle Bolsonaro fez discurso de agradecimento em linguagem de sinais Evaristo Sá/AFP Ao lado da escultura aparece uma Estrela de Davi, símbolo associado ao judaísmo e frequentemente utilizado por segmentos evangélicos em demonstrações de apoio ao Estado de Israel. Para Cortez, a presença do objeto reforça uma conexão política e religiosa valorizada por parte da direita brasileira. A ambientação inclui ainda um cordão de contas amarelas, um livro utilizado como base para os objetos, uma taça de vidro lapidado em tom roxo e um mapa do território brasileiro, contendo as representantes estaduais do PL Mulher. Michelle segura, durante todo o vídeo, uma caneta esferográfica de tampa azul. Durante a campanha eleitoral e em atos como presidente, Jair Bolsonaro usou e citou com frequência o objeto popular em seus atos, ora mencionando a marca Bic, ora trocando o objeto pela equivalente da empresa Compactor. Jair Bolsonaro mostra caneta utilizada para assinar decreto que flexibilizou posse de armas; ato foi revogado posteriormente, mas o presidente voltou a assinar novos decretos sobre o tema, que é uma promessa de campanha Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo LEIA TAMBÉM Após atrito com Flávio, Michelle nega 'briga' e diz que vão 'trabalhar juntos' nas eleições SADI: Aliados de Flávio Bolsonaro veem Michelle em campanha pelo comando do bolsonarismo ANA FLOR: Vídeo de Michelle é resposta à pressão para ajudar Flávio com evangélicos e mulheres A parede das homenagens Michelle gravou o vídeo diante de uma parede preenchida por quadros com diplomas, certificados, medalhas e homenagens emolduradas. A estratégia visual é frequentemente utilizada por figuras públicas para transmitir autoridade, legitimidade e reconhecimento institucional. Entre os itens exibidos estão títulos de cidadania honorária, condecorações recebidas de municípios e medalhas acompanhadas por fitas coloridas. Também aparecem retratos de personagens históricos e textos explicativos. A mesma parede já foi utilizada em outras gravações divulgadas pela ex-primeira-dama, sugerindo uma escolha recorrente de cenário para pronunciamentos de maior relevância política. Parede de honrarias e condecorações é cenário para vídeo de Michelle Bolsonaro publicado em agosto de 2025 Reprodução/Instagram A roupa escolhida pela ex-primeira-dama também tem uma mensagem. A camisa azul possui bordados com termos como "mansidão", "alegria", "amor" e "domínio próprio", palavras que representam os Frutos do Espírito descritos no livro de Gálatas da Bíblia. O contexto da crise A simbologia serve de pano de fundo para um desabafo. No vídeo publicado em sua conta no Instagram, Michelle critica a aproximação do PL cearense com o grupo político de Ciro Gomes (PSDB), a quem responsabiliza pela inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela também defende nomes identificados com uma direita mais ideológica, como Priscila Costa e Eduardo Girão, em contraposição ao que classifica como pragmatismo político. Durante o relato, Michelle afirmou ter sido vítima de uma "punhalada" e disse ter sido desrespeitada pelo senador Flávio Bolsonaro durante um telefonema. O episódio evidenciou divergências sobre os rumos da direita brasileira às vésperas das eleições de 2026. Para Cortez, Michelle tomou uma estratégia arriscada e terá seu posicionamento dentro do campo bolsonarista questionado, considerado como traição. "Isso eventualmente pode trazer benefícios futuros, mas me parece que ela toma um risco ao entrar em choque direto com filhos do ex-presidente, em particular com Flávio". O cientista político reforça que o movimento conservador não é ancorado na figura do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas em valores. "Michelle dialoga com um campo conservador que tem por característica um olhar para a vida em sociedade a partir de referências religiosas e doutrinárias, um olhar muito normativo. A persona de Michelle se legitima a partir do campo conservador. Então [a mensagem] não é uma tentativa de ampliar o diálogo com outros campos políticos, é na verdade um diálogo mais endógeno, dentro da direita", conclui Cortez.
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