Lula errou feio ao transformar Neymar em alvo de lacração
Há muitas críticas que podem ser feitas a Neymar. Algumas justas, outras exageradas. Pode-se discutir seu desempenho recente, suas lesões, suas escolhas profissionais ou até sua atuação fora dos gramados. Tudo isso faz parte do debate público em torno do principal nome da seleção brasileira dos últimos anos. O que não faz sentido é ver o presidente da República entrar nessa arena para lacrar, como se estivesse disputando curtidas nas redes sociais.
Ao chamar Neymar de jogador “home office”, Lula cruzou uma fronteira desnecessária. Não porque presidentes não possam fazer piadas, nem porque figuras públicas devam ser blindadas contra críticas. Mas porque existe uma diferença evidente entre exercer a Presidência e usar o peso do cargo para ridicularizar um atleta que representa o país em uma Copa do Mundo. Afinal, Lula está torcendo a favor ou contra a seleção?
O Brasil tem desafios muito maiores do que a contusão de Neymar. A economia cresce menos do que poderia. Reformas importantes continuam pendentes. O ambiente internacional está longe de ser tranquilo. Nesse contexto, soa estranho ver o presidente gastar energia para debochar de um atleta. Qual é, afinal, o benefício institucional dessa atitude?
A piada de Lula produz um efeito colateral óbvio, e é difícil não suspeitar que esse fosse justamente o objetivo do presidente. Ela transforma o futebol em campo de batalha ideológica. Nos últimos anos, Neymar – por mais absurdo que isso pareça – passou a fazer parte do debate político. A esquerda não perde uma chance de atacá-lo. Para a direita, o jogador virou um ativo eleitoral. No fim, o futebol desaparece e sobra apenas a insuportável, tóxica e estéril polarização.
O papel de um presidente não é ampliar divisões que já existem. É exatamente o contrário. É por isso que a piada sobre Neymar soa tão inadequada. Ela não aproxima ninguém, não resolve nada e não produz qualquer benefício para quem quer que seja, nem mesmo para Lula. Serve apenas para reforçar antagonismos em um país exausto de conflitos permanentes.
Uma última observação: parece que Neymar logo entrará em campo. Já o bom senso segue sem previsão de retorno.