Ninfoplastia em consultório: estudo brasileiro atesta resultados de procedimento que não requer internação
O Brasil se tornou um dos países que mais fazem ninfoplastia, uma cirurgia íntima focada no remodelamento ou redução dos lábios vaginais. Mas nem sempre os resultados saem como esperado, especialmente se a mulher tiver o que os especialistas chamam de proeminência do capuz clitoriano, um excesso de dobra de pele sobre o clitóris. Foi para resolver esse dilema que um ginecologista brasileiro aperfeiçoou um procedimento que tem a vantagem de não precisar ser realizado no hospital, como as plásticas tradicionais.
O médico Igor Padovesi, ex-preceptor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Instituto de Cirurgia Íntima, em São Paulo, desenvolveu a chamada técnica Y, que atua de forma integrada nos pequenos lábios vaginais e no capuz clitoriano. O método foi validado em um estudo com 132 mulheres e premiado no último congresso da Associação Internacional de Uroginecologia, em Barcelona, na Espanha.
Enquanto a ninfoplastia convencional não interfere necessariamente no excesso de tecido sobre o clitóris e precisa ser feita em hospital sob anestesia total, o procedimento pode ser realizado em consultório ou ambulatório com anestesia local e sem necessidade de internação.
“A principal diferença em relação à cirurgia feita em hospital é que a mulher pode vir sozinha de forma privativa sem precisar de acompanhante. E demonstramos com essa pesquisa que a aceitabilidade e a satisfação com o procedimento são altíssimas”, diz Padovesi.
Segundo o ginecologista, a técnica Y pode ser realizada em qualquer mulher que tenha queixas estéticas ou sexuais relacionadas à região genital. “Ela atende entre 80 e 90% dos casos de aumento dos pequenos lábios porque se adapta a diferentes tipos de anatomia.”
“É uma maneira eficaz e simplificada de solucionar a questão nos lábios e a sobra de pele na região clitoriana, uma queixa comum inclusive entre pacientes que já fizeram ninfoplastia”, destaca o médico.
Para a realização do procedimento íntimo, além de a paciente estar em um estado clínico adequado (como de praxe), Padovesi ressalta que é preciso avaliar a eventual presença de transtorno dismórfico corporal. “É uma doença psiquiátrica em que a mulher tem uma percepção distorcida do próprio corpo e acaba enxergando defeitos onde só ela consegue ver. Seria a única contraindicação da técnica.”
O estudo e os resultados
O estudo com a técnica Y foi baseado no acompanhamento de 132 mulheres de 15 a 69 anos que foram submetidas a labioplastias entre 2018 e 2023, sendo que o método criado por Padovesi foi aplicado em 103 delas – justamente os casos em que o excesso de tecido nos pequenos lábios era acompanhado da proeminência do capuz clitoriano.
“A técnica ajuda a manter a proporção entre essas estruturas, o que melhora o resultado estético”, afirma o ginecologista, para quem a pesquisa recém-publicada ajuda a colocar o Brasil na vanguarda das cirurgias íntimas.
De acordo com o trabalho, mais de 90% das pacientes tratadas relataram que o procedimento resolveu todas as suas queixas, 88% apontaram aumento da autoestima e 83% disseram ter experimentado melhoras de desejo e satisfação sexual.
Padovesi ressalta que quase 70% das participantes do estudo já se sentiam recuperadas nos primeiros dois meses após a intervenção. Nas cirurgias tradicionais, isso tende a levar mais tempo. Quanto à segurança, não houve relatos de problemas ou complicações após a realização do procedimento.
“Quando bem indicada, essa técnica apresenta realmente resultados excelentes, tanto estéticos quanto funcionais, fato também observado em meu consultório”, afirma a cirurgiã plástica Renata Magalhães, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, que já tem mais de 500 casos operados.
No entanto, a cirurgiã pondera que, embora a intervenção possa ser feita em nível ambulatorial – com a paciente tendo alta no mesmo dia -, isso não significa que deve ser feita em qualquer tipo de consultório, sem o devido rigor asséptico e o suporte para urgências e emergências. “É uma cirurgia, e ainda que pequena, precisa ser realizada em ambiente adequado”.
Para Magalhães, a técnica é uma ótima opção para o tratamento de pequenos lábios com bordas espessas, escurecidas ou irregulares, associada ao excedente de pele sobre o clitóris. Mas a médica lembra que ela não resolve situações como a hipertrofia clitoriana (que pode ser causada por uso de anabolizantes) ou casos de flacidez longitudinal dos pequenos lábios.
“A padronização realizada por Padovesi é importante para ensinar médicos com pouca experiência a executar uma cirurgia íntima básica com resultados satisfatórios e evitar as sequelas que vemos com tanta frequência hoje em dia em nossos consultórios”, comenta a cirurgiã plástica.