No jogo da vida, as crianças precisam aprender a lidar com a ansiedade
Um final de partida da seleção, o primeiro dia de aula, uma apresentação na escola… Há momentos em que o mundo não parece caber dentro do peito. É quando a ansiedade entra em campo. Batimentos acelerados, mãos suadas, como se a gente fosse bater o último pênalti na final da Copa do Mundo.
A ansiedade não é uma adversária, mas uma defesa, uma reação natural para nos deixar em alerta e nos proteger de perigos. A grande questão é quando ela vem para o ataque: transborda, paralisa e assume o controle.
Muitas crianças vivem esse “jogo” no cotidiano, nas relações e nas expectativas que carregam. É nesse cenário que a família deve entrar em campo, não para resolver a partida pelos filhos, mas como se fosse o técnico atento, à beira do campo, observando, orientando, escutando e acolhendo.
E como um bom técnico, que lê o jogo, é necessário perceber quando o time está “desorganizado”, nervoso, precisando de ajuda, de uma nova estratégia, se reorganizar e pedir calma. Diante da ansiedade, podem ensinar a parar, respirar, compreender que nem todo lance precisa ser decidido no impulso.
Há casos que, na tentativa de ajudar, podem aumentam a pressão, como uma torcida que cobra demais. Não seja o juíz dizendo: “não precisa ficar nervoso” ou “isso não é nada”. Em vez disso, reconheça e acolha o que a criança sente: “eu sei que você está ansioso, isso acontece e é comum”.
Segundo o psicólogo Daniel Goleman, é importante nomear as emoções que se sente, isso ajuda a criança a compreendê-las e, consequentemente, regulá-las.
Antes de a ansiedade entrar em campo, que tal ouvir a música favorita, levar um objeto de segurança, repetir uma frase positiva, respirar lentamente para o corpo a desacelerar?
Assim como um atleta treina para as partidas, pode-se preparar os mais jovens para essas situações, conversar sobre o que pode acontecer, imaginar cenários, ler uma história e até brincar de “faz de conta”. Tudo isso pode ajudar a diminuir o medo do novo.
Mas, acima de tudo, é preciso ter o afeto. Dar um abraço e dizer “estou com você”, faz com que a criança não se sinta sozinha. Assim, ela pode contar com o seu time e perceber que, independentemente do resultado, há sempre alguém na beira do campo da vida torcendo e acreditando nela.
Não é sobre “vencer de goleada”, mas sim sobre jogar mesmo quando o coração aperta ou quando está atrás no placar. Sim, às vezes, é preciso recuar, reorganizar e recomeçar a jogada.
Mostre que errar faz parte do jogo, que ele pode mudar o placar e que não se abandona a partida. Valorize todo o esforço e não apenas o resultado. Ensine que errar, vencer e perder fazem parte do processo, e isso não define ninguém. E tudo bem pedir ajuda, porque há momentos, no jogo, que contar com um especialista é a melhor estratégia para seguir em campo com mais equilíbrio.
Lembre-se de que, quando a ansiedade apita forte, o mais importante é saber com quem contar para driblar os desafios no jogo da vida.
* Liliane Mesquita é pedagoga e psicopedagoga, com atuação de mais de duas décadas na área da educação, e coautora, ao lado da atriz Regiane Alves e da ilustradora Janine Eufrásio, do livro Meu mundo é uma bola (Ciranda Cultural)