Números valiosos: Qive entra na fila para ser o próximo unicórnio brasileiro
Em 2011, ao voltar de uma temporada de estudos na Alemanha, Isis Abbud e Christian de Cico abriram um negócio de importação em São Carlos, cidade com cerca de 270 000 habitantes no interior de São Paulo. A empresa não vingou e os dois, casados desde 2009, foram à luta. Enquanto ela trabalhava com computação em uma empresa local, ele cuidava das finanças da construtora do pai. Em certo momento, para atender à crescente demanda, o pai cogitou comprar dois caminhões. “Aquilo me incomodou”, diz Cico, que passou dias esmiuçando notas fiscais e outros documentos em busca de informações como os horários, trajetos e volume transportado pelos cinco caminhões que a empresa já possuía. No fim, constatou que não era preciso aumentar a frota — bastava gerenciá-la melhor. Isso evitou que a construtora desperdiçasse mais de 1 milhão de reais e Cico percebeu uma nova chance de empreender. O episódio foi o pontapé inicial da Qive, fundada em 2013, que, em 2025, processou 3 trilhões de reais em notas fiscais eletrônicas, o equivalente a 20% do total emitido no país.

Por trás desses números imponentes está uma origem modesta marcada por 60 000 reais emprestados pelo pai e divididos em seis parcelas. Com o dinheiro, Cico e Abbud alugaram um sobrado em São Carlos, compraram notebooks e pagaram dois programadores que os ajudaram a desenvolver a primeira versão do software de análise de notas fiscais que se tornaria o carro-chefe do negócio. A divulgação do produto era feita na base do boca a boca. Para alcançar um público mais amplo, a empresa investia também 50 reais por dia para impulsionar sua exposição nos resultados de busca do Google. Na época, os interessados podiam adquirir o software por apenas 150 reais. Com isso, atraiu uma clientela de pequenas empresas. Em 2015, porém, um contato inesperado mudou o rumo da Qive.
A Arcos Dorados, master-franqueada da rede de fast-food McDonald’s no Brasil e em mais vinte países da América Latina, procurou a empresa em busca de ideias para reduzir o desperdício na produção de batatas fritas na Cidade do Alimento, o complexo industrial instalado em Osasco, na Grande São Paulo. É ali que os produtos são processados e seguem para abastecer os restaurantes da rede. Para atender à consulta, o casal recorreu a um trunfo: ao contrário do que se pode supor pela expertise de seu negócio, eles não são formados em contabilidade ou computação, mas em engenharia de produção. Em três meses, apresentaram uma solução para o problema e fecharam o seu primeiro grande contrato.
À primeira vista, poderia parecer que a Qive, concebida para processar documentos fiscais, havia se desviado de seu core business para terminar rastreando batatas. Para seus fundadores, contudo, aquela foi uma chance de comprovar a assertividade do software de análise. É verdade que a ferramenta acelera processos de contas a pagar e a receber, facilita o cálculo de impostos e alivia o trabalho burocrático dos clientes, mas o que impulsionou o crescimento da Qive foi a sua capacidade de reunir uma grande massa de dados dispersos em toda a papelada de uma empresa e transformá-los em informações estratégicas de gestão. Formulários de nomes enigmáticos, antes tratados como mera burocracia, como o Danfe, o Dacte, o CT-e e o CC-e, contêm dados valiosos como o horário de entrada e de saída de um produto de um centro de distribuição, o tempo gasto para entregá-lo, o peso da carga transportada, eventuais atrasos de fornecedores e muito mais. “O volume de informações gerenciais embutidas em uma nota fiscal eletrônica é enorme”, diz Abbud. “Nossa sacada foi desenvolver uma ferramenta que acessa esses dados.”

Desde o contrato com o McDonald’s, a Qive encorpou sua carteira com outros clientes de peso, como a fabricante de lápis Faber-Castell, o gigante de alimentos Kraft Heinz, o aplicativo de entregas iFood e a varejista Casas Bahia. A economia gerada pela simplificação de processos ajuda as empresas a reduzir o custo Brasil, que corrói sua competitividade. “Tínhamos vinte funcionários cuidando dos pagamentos”, diz Veridiana Santos, gerente de tecnologia da informação da Casas Bahia. “Agora, bastam duas.” Com mais de 700 lojas espalhadas por 400 municípios de 23 estados, a varejista também precisa lidar com as complexas leis tributárias do país. Eram necessários até dois dias para gerenciar o recolhimento de impostos. “Hoje, algumas rotinas são feitas em poucos minutos”, afirma Santos.

De capital fechado, a Qive não divulga o faturamento, mas seus mais de 300 funcionários indicam que o porte da operação já é considerável. Em treze anos de atividade, o negócio já amealhou mais de 400 milhões de reais em aportes de investidores do Brasil e do exterior. Entre eles estão fundos de private equity como o brasileiro Monashees, os americanos Valor Capital e Riverwood e o suíço Constellation. Os recursos não foram aplicados apenas no crescimento orgânico, mas também em aquisições. Em 2023, por exemplo, a Qive comprou a então concorrente ConexãoNF-e por um preço não divulgado, acrescentando à carteira mais 10 000 clientes, entre os quais as fabricantes de equipamentos eletrônicos Samsung e Multilaser. Com os aportes de capital e a expansão do negócio, o valor estimado da Qive se aproxima da marca simbólica de 1 bilhão de reais. A rigor, para ser considerada um unicórnio no universo das startups, uma empresa precisa valer pelo menos 1 bilhão de dólares — cerca de 5 bilhões de reais. A distância não tira o bom humor dos fundadores. “Digo que somos um ‘pôneicórnio’”, diverte-se Cico. “Mas crescemos mais de 60% nos últimos dois anos.”
O crescimento orgânico, isto é, sem recorrer a fusões e aquisições, é a estratégia para os próximos anos, diante do grande mercado que ainda pode ser explorado. A Qive também é cautelosa quanto a adotar ferramentas de inteligência artificial. “Lidamos com dados sensíveis e devemos evitar riscos de quebra de privacidade”, diz Cico. Outra frente em estudo é a prestação de serviços financeiros. Neste ano, a companhia chegou a pedir ao Banco Central uma licença para operar como instituição de pagamento, mas o pedido foi retirado após a Qive concluir que pode atingir os mesmos objetivos — e a mesma escala operacional — por meio de parceiros estratégicos. Enquanto isso, o “pônei” de São Carlos segue seu caminho para virar um unicórnio.
Publicado em VEJA, junho de 2026, edição VEJA Negócios nº 27

