O Brasil goleou o Haiti por 3 a 0 – o que a vitória elástica representa para o futuro da seleção na Copa
O Brasil goleou o Haiti por 3 a 0, no estádio da Filadélfia, pela segunda rodada da Copa do Mundo. Mas para quê mesmo serviu o placar elástico? Para esticar a noite brasileira, em festas e bares, o que não é nada mal. Serviu também para que a seleção de Carlo Ancelotti, ao retornar para o hotel The Ridge, em Basking Ridge, a duas horas de ônibus de Filadélfia, possa dormir tranquila – missão cumprida, haitianos atropeladas e vida que segue. A Escócia será um pouco mais difícil, embora nem tanto. A briga agora, na terceira rodada, é saber quantos gols o Marrocos marcará contra o país caribenho – e o primeiro lugar do grupo será decidido no saldo de gols.
O Haiti, ingênuo, frágil na defesa e sem criatividade no ataque, mal disputaria a Série C do Brasileirão – não há demérito em fazer essa constatação. É resultado de uma Copa inchada, com 48 seleções, em que as goleadas brotam com facilidade. O Canadá venceu o Catar por 6 a 0 – e o Canadá não deve ir muito longe no torneio. A Alemanha fez aquele placar incomodo, aquele de 2014, contra Curaçao. A Suécia fez 5 a 1 na Tunísia. São resultados que ajudam a relativizar a vitória brasileira.
Não é o caso de dizer que foi tudo ruim, não foi. Paquetá, sobretudo ele, organizou muito bem o meio de campo. Matheus Cunha fez o que dele se pedia: gols, algo que Igor Thiago nem chegou perto contra o Marrocos. Vinicius Jr. também marcou, embora tenha perdido muitas bolas, algumas vezes tentando entrar na grande área, para depois deixá-la, sem conseguir vencer os adversários. Raphinha saiu contundido e apagado – é possível que tenha perdido a posição para Rayan. E a defesa, embora sem ter sido realmente incomodada pelo Haiti, anda capenga, lenta e aberta em demasia. Preocupante, se e quando for enfrentar ataques como o da França e Inglaterra.
E o Endrick, que enfim entrou, para clamor dos brasileiros? Pouco fez, como se participasse de um treino coletivo – a entrada do atacante do Real Madrid não é garantia de que tenha conquistado a posição, no lugar de Matheus Cunha. Ancelotti, que na véspera garantiu bom futuro para o garoto, se não nesse torneio, na próxima Copa, tratou de pô-lo em campo de modo a fazê-lo crescer em experiência. Já é alguma coisa. Chegou a fazer um gol, corretamente anulado, por impedimento. A torcida vibrou como se fosse um Pelé, mas em vão.

Tudo somado: primeiro tempo bom, deu para o gasto, com três gols, mas diante de equipe sem força alguma. No segundo tempo, até porque a Copa é longa, foi um passeio no sentido literal da expressão, com dois lances perigosos do Haiti. O clima pesado depois do insosso empate com o Marrocos diminuiu, sem dúvida. Mas agora é que os problemas começam de verdade, depois de atravessado o rubicão da Escócia. Mas Ancelotti tem um onze ainda sem qualidade – ótimos atacantes, defesa lenta e um meio campo sem muita inventividade. Não há conjunto. Pena, mas pena mesmo, o Brasil já não ter meias e volantes como no passado.
O resultado, lembre-se, foi o mesmo de 1974, contra o Zaire – um 3 a 0 tímido em demasia, preâmbulo de uma Copa ruim, na qual o Brasil seria eliminado pela Holanda de Cruyff e disputou – para perder – o terceiro lugar com a Polônia.