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O custo da promessa

17 de Agosto de 2026, 10:00 1 visualizações
O custo da promessa

Os candidatos à Presidência começaram a apresentar suas propostas para a economia, e o que se viu até aqui não parece muito promissor. O ajuste fiscal — o esforço para evitar que o governo gaste continuamente mais do que arrecada — raramente ocupa o centro dos programas. Quando aparece, vem embalado por ideias ainda vagas ou desarticuladas entre si. Os números atuais mostram que esse deve ser um dos maiores problemas para o próximo presidente, considerando a evolução recente da dívida pública.

Mas o que diz o nosso histórico? Um levantamento feito pela coluna, com base em fontes oficiais e conversas com especialistas do mercado, mostra que promessa e resultado nem sempre caminham juntos. Fernando Collor lançou os Planos Collor I e II, mas não entregou um ajuste sustentável. Itamar Franco apresentou, em 1993, o Programa de Ação Imediata, que tinha como meta zerar o déficit operacional em 1994. Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, combinou o programa de estabilização com a Lei de Responsabilidade Fiscal e entregou superávits primários superiores a 3% do PIB entre 1999 e 2002. Ou seja, Collor não cumpriu; Itamar e FHC cumpriram (detalhes no quadro abaixo).

No primeiro ciclo de governos Lula, de 2003 a 2010, houve superávits primários contínuos, embora a meta variasse ao longo dos anos; por isso, a classificação é de cumprimento. Já Dilma Rousseff não cumpriu: a gestão terminou com déficits primários e com pareceres do Tribunal de Contas da União pela rejeição das contas de 2014 e 2015. Michel Temer criou o teto de gastos, mas criar a regra não equivale, por si só, a entregar o ajuste prometido; pelas obrigações binárias, não cumpriu. Jair Bolsonaro aprovou a reforma da Previdência, mas a pandemia alterou profundamente as contas públicas e não houve resultado fiscal integral que confirmasse a promessa de ajuste; também não cumpriu.

Neste terceiro mandato de Lula, boa parte dos apoiadores do petista reclama que o discurso de controle dos gastos ficou só no papel. Nos últimos 12 meses até junho de 2026, o governo gastou R$ 157,2 bilhões a mais do que arrecadou — esse é o chamado déficit primário. Quando se acrescenta o pagamento de juros da dívida, o rombo total chega a R$ 1,317 trilhão. A dívida pública, por sua vez, é uma conta acumulada de empréstimos e compromissos reforçados pelo Estado ao longo dos anos; a previsão é de que ela deve equivaler a cerca de 83% de toda a riqueza produzida pelo País em 2026. Em resumo: o déficit é o saldo negativo de um período; a dívida é o total que permanece a pagar.

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O Brasil não precisa de promessas vagas, nem de regras fiscais que funcionam apenas no papel. Num eventual quarto mandato, Lula precisará mostrar que o arcabouço fiscal será realmente aplicado de modo capaz de conter o crescimento das despesas e reduzir a necessidade de endividamento. Se der Flávio Bolsonaro, o candidato do PL terá o desafio de indicar de onde virão os recursos para qualquer promessa de redução de tributos, ampliação de benefícios ou novos gastos.

Sem esses compromissos, a conta continuará pesando no bolso do cidadão (e contribuinte) na forma de inflação mais persistente, juros altos, menor investimento e pressão por impostos. A gritaria de economistas e do mercado financeiro não é em vão.

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Presidente e gestão Medida ou instrumento oficial Resultado ou dado oficial verificável Avaliação final
Fernando Collor (1990–1992) Plano Brasil Novo — Planos Collor I e II, incluindo a Lei nº 8. 024/1990 Não há, nas fontes oficiais consultadas, base suficiente para reconhecer resultado fiscal sustentável em toda a gestão. Não cumpriu
Itamar Franco (1992–1994) Programa de Ação Imediata (PAI), de 1993 O PAI estabeleceu a meta de zerar o déficit operacional em 1994. Cumpriu
Fernando Henrique Cardoso (1995–2002) Programa de estabilização e Lei de Responsabilidade Fiscal — LC nº 101/2000 O setor público consolidado manteve superávits primários superiores a 3% do PIB entre 1999 e 2002. Cumpriu
Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010) Metas de superávit primário previstas nas leis orçamentárias O período registrou superávits primários contínuos, ainda que as metas variassem ao longo dos anos. Cumpriu
Dilma Rousseff (2011–2016) Metas fiscais das LDOs; tentativa de ajuste em 2015 Houve déficits primários e o TCU emitiu pareceres pela rejeição das contas de 2014 e 2015 naquela época. Não cumpriu
Michel Temer (2016–2018) Emenda Constitucional nº 95/2016 — teto de gastos A regra foi criada, mas o simples fato de instituí-la não demonstra, sem a verificação anual completa, que o ajuste fiscal prometido foi integralmente entregue. Não cumpriu
Jair Bolsonaro (2019–2022) Reforma da Previdência — EC nº 103/2019; regime extraordinário da pandemia — EC nº 106/2020 A reforma foi aprovada, mas a pandemia alterou as contas públicas e não há resultado fiscal integral que permita afirmar o cumprimento da promessa. Não cumpriu
Luiz Inácio Lula da Silva (2023–presente) Lei Complementar nº 200/2023 — novo arcabouço fiscal A regra está em vigor, mas a execução e os resultados dependem da apuração do exercício do mandato completo. Ainda não cumpriu
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