O fator que leva golfinhos a perseguir barcos de pesca, segundo novo estudo
A depender da região marítima, alguém à bordo de um grande barco de pesca — também conhecido como “arrastão”, ou em inglês trawler — pode observar que, à medida que crustáceos e peixes são capturados pelas redes, golfinhos provavelmente também estarão por perto, à procura de comida. Isso ao menos na região do mar da Itália, como identificado por uma nova pesquisa publicada nesta sexta-feira na revista Frontiers in Mammal Science. Os pesquisadores responsáveis entenderam que esse comportamento não é à toa: eles podem estar atrás de comida porque não há mais tantas presas disponíveis no restante do mar.
De acordo com o estudo — coordenado por Giovanni Bearzi, presidente da Dolphin Biology and Conservation — até 76% dos barcos que navegam pelo Mar Adriático, região entre a Itália e a Península Balcânica, são seguidos por golfinhos-nariz-de-garrafa (ou Tursiops truncatus), e os especialistas indicam que esse comportamento acontece porque, na região que é foco de pesca, não há mais tanta comida disponível para os animais caçarem em outros lugares.
Por décadas, o Mar Adriático tem sido foco de pesca por pescadores com barcos especializados para o feito. Os pesquisadores destacam que esse tipo de embarcação, conhecida por realizar pesca de arrasto de fundo — em que grandes redes são soltas e arrastadas pelo solo marítimo — é prejudicial para o habitat, além de exaurir a vida marinha. Por causa do dano extenso causado pelos anos de caça, muitos dos outros predadores de topo de cadeia sumiram do mar. Por isso, os golfinhos observados pela pesquisa são a única espécie que continua a morar na região.
Grande parte do dia a dia desses animais tem se voltado à perseguição dos barcos de pesca. 76% dos barcos investigados na costa de Marche, na Itália, tinham golfinhos por perto. “Mesmo que eles precisem caçar de forma independente quando não há barcos, nos dias de pesca eles encontram comida de forma predominante perto das redes de pesca”, explica Bearzi. Apesar do fato confirmado, ainda não é possível identificar, por exemplo, o impacto total desse comportamento na saúde dos animais.
Para compreender o fenômeno, a equipe monitorou barcos na costa de Vêneto, entre 2018 e 2024, e Marche, em 2025. Na última, eles realizaram 859 inspeções. O processo consistiu em fotografar os animais da região para identificá-los de forma individual. A partir disso, análises mais precisas puderam ser feitas sobre as diferenças nas regiões. Com uma comunidade de cerca de 1000 animais, 76% dos barcos de Marche tinham golfinhos por perto.
O estudo identificou também uma diferença no tipo de barco que é perseguido pelos animais. Quanto os trawlers eram otter trawlers (ou seja, tinham uma grande rede de pesca em formato de cone), 41% dos animais os seguiam. Quando eram barcos de pesca para águas médias (com redes mais fundas), 35% deles os seguiram, mas quando eram beam trawlers, barcos com redes que contam com uma grande barra de ferro em sua abertura, só 1,5% dos animais os perseguiam, muito provavelmente pela dificuldade de acessar o conteúdo da pesca.
A presença de golfinhos perto de barcos de pesca não é novidade, mas esse tipo de comportamento parece ter crescido com o passar do tempo. Nos anos 1990, outro estudo na mesma região marítima identificou que apenas 10% dos barcos tinham golfinhos por perto. Agora, com o número na casa dos 70%, fica claro que essa mudança pode ter acontecido pela facilidade em encontrar comida de uma mesma fonte, frente um ambiente exaurido de presas.
Apesar do mau presságio ecológico, os pesquisadores deixam claro que, apesar dos problemas óbvios desse comportamento, golfinhos nariz-de-garrafa são resilientes. Caso a pesca na região fosse reduzida ou banida, o ecossistema poderia ter uma chance de se reconstruir, e os animais voltariam a hábitos mais saudáveis. Bearzi defende essa redução, “não só para proteger os golfinhos, mas para conservar a biodiversidade marinha de forma mais geral”.