O paciente invisível: o diagnóstico tardio das doenças hematológicas
Mesmo com avanços relevantes da medicina, o diagnóstico tardio de doenças hematológicas, aquelas que afetam o sangue, ainda é um desafio no Brasil. O problema não está apenas na complexidade dessas condições, mas em uma combinação de fatores que começa na baixa suspeita clínica e termina nas barreiras de acesso ao diagnóstico.
Por serem menos frequentes do que outras doenças, condições como o mieloma múltiplo (segundo tipo mais frequente de câncer no sangue), a leucemia linfocítica crônica e até formas graves de anemia ainda são pouco reconhecidas por parte da população e até por profissionais de saúde.
Sintomas muitas vezes inespecíficos, como cansaço persistente, dores ósseas ou alterações laboratoriais discretas no hemograma, acabam sendo atribuídos a causas mais comuns, o que retarda a investigação adequada. Esse cenário dá origem ao chamado “paciente invisível”.
De um lado, há a invisibilidade clínica, quando sinais são subestimados, uma anemia que não melhora com a reposição de ferro, por exemplo, pode ser o primeiro indicativo de um mieloma, mas o alerta demora a acender. De outro, a invisibilidade institucional, marcada por falhas na jornada do paciente dentro do sistema de saúde, com encaminhamentos tardios e dificuldade de acesso a especialistas.
O resultado é um percurso fragmentado, com múltiplas consultas e pouca resolutividade. Na prática, o atraso no diagnóstico é multifatorial. Envolve desde a menor familiaridade na atenção primária até limitações no acesso a exames específicos.
Mesmo quando disponíveis, esses exames dependem de regulação, o que prolonga o tempo até a confirmação diagnóstica. Fora dos grandes centros, o desafio é ainda maior, tanto pela escassez de estrutura quanto pela necessidade de especialistas para procedimentos essenciais.
As consequências são significativas. Para o paciente, o diagnóstico tardio de um câncer hematológico ou de uma condição crônica está associado a mais complicações, pior prognóstico e perda de qualidade de vida.
Para o sistema de saúde, significa aumento de custos, com maior número de internações e uso de recursos de alta complexidade. Há evidências de que tratar a doença em estágios avançados pode custar até quatro vezes mais do que em fases iniciais.
Embora novas tecnologias já permitam diagnósticos mais precoces, o acesso ainda é desigual. Essas inovações permanecem concentradas em centros privados ou de pesquisa, distantes da realidade da maior parte da população.
O desafio, portanto, não é apenas tecnológico, mas estrutural. Tornar esse paciente visível exige fortalecer a educação médica, ampliar o acesso a exames e organizar melhor os fluxos de encaminhamento. Reduzir o tempo até o diagnóstico não é apenas uma questão clínica, é uma estratégia essencial para um sistema de saúde mais eficiente e equitativo.
*Maricy Viol é médica hematologista e consultora médica na Binding Site, com atuação em gamopatias monoclonais