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O paulista que faz dinheiro vendendo hambúrguer ‘premium’ para americano

21 de Junho de 2026, 12:00 0 visualizações
O paulista que faz dinheiro vendendo hambúrguer ‘premium’ para americano

Em termos de gastronomia, nada é mais americano do que um hambúrguer. Difícil, por isso mesmo, imaginar que um brasileiro, vindo do setor gráfico e de publicidade, com experiência em impressão de materiais promocionais, apostaria alto e daria certo com uma rede de hambúrgueres nos Estados Unidos, que tem como cliente principal… os americanos. A trajetória de Sérgio Bosco Júnior, 50 anos, CEO do The Brave Burger, é curiosa por trazer ensinamentos que muito empreendedor acaba esquecendo ao longo de uma jornada de riscos. Atualmente com três lojas, e com plano de expansão para chegar a quarenta nos próximos três anos, Sergio apresenta sua história de erros e acertos.

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Por que escolheu investir nos Estados Unidos? Começou em São Paulo, já tinha plano de fazer o negócio crescer, sempre tive a ideia de transformar isso em franquia, embora ainda não soubesse a forma. Sabia que seria hamburgueria, já tinha a intenção de escalar e construir uma rede. Eu e minha esposa tivemos várias conversas para decidir se ficava em São Paulo ou não. No fim das contas, tivemos uma ajuda importante. A mãe dela comprou uma casa em Orlando e cedeu para a gente morar, o que foi um impulso. O plano de mudança aconteceu em 2017.

E como tudo começou? Decidi começar com um food truck, me dava uma segurança maior, já que, se um ponto fixo não funcionasse, não perderia todo o investimento, além de me permitir ganhar experiência prática no mercado. Fiquei um ano e meio nessa fase, até consolidar o negócio e entender como evoluir para algo maior. A gente participava de eventos e feiras pelas cidades, e fomos ficando conhecidos. Em praticamente todos os lugares que a gente ia, sempre tinha fila, dava sold out, ou seja, acabava o produto.

Um brasileiro vendendo hambúrguer para americanos. Ousado, não? Sim, e foi na pandemia, quando todo mundo teve que fechar as portas, que estacionei o food truck e começou a tentar alguma coisa na minha casa, um delivery voltado para brasileiros. Só que meu público não era brasileiro, a marca era mais americana. Depois de um mês, quando começou a flexibilizar o comércio, fui atrás de um ponto. Encontramos uma oportunidade em Clermont (cidade da Flórida). Hoje essa unidade é de um franqueado. O que estamos fazendo agora é organizar um cinturão inicial de expansão, para que a região da Central Flórida, toda a área de Orlando e cidades ao redor, conheçam mais a marca.

Qual foi o momento mais tenso dessa trajetória? Para ter um bom vinho tem que amassar uva, não? Às vezes, a gente é amassado para depois serem extraídas da gente coisas melhores. Tive um processo bem duro, perdi muito dinheiro em 2021, pandemia ainda. Me associei a uma pessoa que me apresentou ao dono de um shopping em Houston no Texas, que me ofereceu um restaurante para 250 pessoas. Acabei aceitando o desafio e o tal sócio entrou comigo. Ele era preguiçoso e eu muito ativo. Ele acabou se apoiando em mim, ficou como uma âncora para eu puxar e começou a dar tudo errado. Precisava faturar 200 mil dólares pelo menos para começar a ter lucro. começou a ficar muito difícil. Acabei fechando, perdi muito dinheiro nesse negócio. Voltei para a Flórida derrotado.

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Que lição você tirou dessa experiência? Tenho muito mais cautela e penso muito mais antes de dar o primeiro passo. Isso me deixou mais atento a detalhes. Tem que colocar a barriga no balcão para fazer o troço acontecer. Aqui é muito isso, não aceita gente com preguiça. Ao abrir franquias, quero oferecer ao meu cliente tanto o cuidado de arrumar um local apropriado como a construção. Tenho conhecimento na padronização, treinamento de funcionário, construção de cardápio, precificação, buscar fornecedores.

O que ouviu quando disse que venderia hambúrgueres aqui? O hambúrguer é o primeiro segmento de alimentação nos Estados Unidos, a pizza vem em segundo lugar, é um mercado muito grande. Quando comecei com essa ideia, vieram críticas construtivas, no sentido de que era preciso ter cuidado, porque competiria com grandes marcas. Me dediquei para construir algo distinto. Hoje a gente se encaixa numa categoria que não é fast food, é a chamada fast casual food, onde estão marcas como Five Guys e Shake Shack. É um nível acima do McDonald’s, com posicionamento premium.

O que isso significa? Nesse modelo, não se usa produto congelado. Usamos carne fresca, o que muda bastante o sabor e a experiência. Aqui trabalhamos com Black Angus, carne certificada nos Estados Unidos, o que garante padrão de qualidade. Outro diferencial é o uso de beef tallow, ou seja, gordura animal nas frituras. Não usamos óleo vegetal.

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Sofreu preconceito? Achei que teria rejeição de americanos, no sentido de olhar e pensar: ‘um cara que veio de fora vai fazer um burger para mim?’. Mas fui surpreendido, isso não aconteceu. Na verdade, são muito acolhedores.

Qual é o seu planejamento de expansão? Gostaria de ter, dentro de três anos, entre 30 e 40 lojas. Depois que se tem umas 15 lojas, o mercado nacional começa a olhar com mais atenção. Existem os chamados “olheiros”, investidores que acompanham startups e negócios que estão surgindo, coisas novas no mercado, e que passam a se interessar em montar várias unidades de uma vez só. É isso que espero que aconteça.

Qual é a vantagem de se investir aqui em detrimento do Brasil? A vantagem é não ter aquele sistema tributário tão confuso, que acaba travando o crescimento. O limite acaba sendo você mesmo, então é possível crescer e expandir bastante.

A política de Trump te afetou? A parte de turismo ser afetada é por causa da imigração. Não nos afetou, porque meu cliente é americano. Depois que o Trump entrou na administração, na verdade senti uma melhora, porque estou fazendo meu trabalho. A gente começou com um valor X, hoje já está quase o dobro depois de dois anos, e a tendência é aumentar pelo marketing que fazemos. Não tenho do que reclamar da administração Trump. Ele tem vários defeitos, mas não acho que o empresário brasileiro que quer investir tenha problema com a política atual. Para quem vem trabalhar e fazer algo sério nas normas da lei, ótimo. Aqui o jeitinho brasileiro não ajuda.

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Como assim? Isso me incomodava um pouco lá no Brasil, como empresário. A gente tem muitos desafios fiscais, fiscalização… Aí vem o fiscal e quer te subornar, aí você tem que tentar burlar alguma coisa para não pagar imposto. Isso me incomodava demais. Sempre quis trabalhar de forma correta, e às vezes o próprio sistema no Brasil te induz ao erro. A mesma coisa que o McDonald’s tem de compromisso e responsabilidade, eu também tenho. Me sinto mais confiante de fazer o negócio aqui do que no Brasil. E sei que no Brasil eu poderia ter ganho até mais dinheiro.

Por quê? Porque com esses jeitinhos todos, às vezes a gente acaba crescendo, mas de uma forma ilícita, desonesta. Aqui você tem que se enquadrar, tem que ter o seguro para o funcionário, tem que ter um seguro de responsabilidade, tem que ter inspeções de bombeiro, a inspeção de saúde… Se não fecham seu restaurante.

O imposto também é um diferencial? Aqui se cobra o imposto do cliente, ele sabe quanto está pagando. Por exemplo, seu hambúrguer é 10 dólares. Você tem que cobrar 6,5%, no condado de Orange, onde a gente está. Vem no recibo que ele está pagando 10 dólares mais 6,5%. No final do mês você recolhe tudo isso num débito automático na nossa conta. É o único imposto que tenho a pagar. Sonegação fiscal é quase impossível, porque está tudo muito às claras. Além das leis trabalhistas serem mais flexíveis.

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O que é bom para quem emprega. Sim, aqui você paga pelo que o cara trabalhou, não tem vínculo com o funcionário. Tem compromissos, tem que dar férias, mas não são remuneradas. O cara trabalhou, ele ganhou. Se não trabalhou, não ganhou. O seguro é obrigatório. Se o funcionário machucar o dedo, o seguro cobre. A empresa não precisa dispor de nada. Isso é em qualquer setor.

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