Ofensiva da Ucrânia provoca crise em região anexada pela Rússia
Nos últimos pronunciamentos públicos, o chefe da Crimeia tentou ser otimista, mas foi direto com os cerca de 2,4 milhões de moradores da região. De acordo com Sergei Aksyonov, o governo local trabalha para resolver o problema, mas em um futuro próximo não existirá combustível a venda para a população devido a ofensiva da Ucrânia contra o território ucraniano ocupado e pontos vitais na Rússia.
A crise na região foi causada após forças ucranianas reforçarem uma estratégia que já vinham adotado há algum tempo: ataques contra instalações ligadas ao setor de combustíveis, comunicações e militar da Rússia. Ações que, segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, reduzem “diretamente o potencial militar-econômico do estado agressor”.
Em um balanço, o governo ucraniano afirmou que 11 refinarias russas, 7 instalações de logísticas de combustível, centros de comunicação espacial e navios e balsas foram atingidas.
Já na Crimeia, a Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia disse que um radar de vigilância, 6 aviões tanque, 2 locomotivas de carga, 3 cisternas de combustível, além de equipamentos militares que eram transportados em um comboio militar, foram atingidos pelos ataques.
O que é a Crimeia?
- A Crimeia é uma península localizada dentro do território da Ucrânia, que foi anexada pela Rússia em 2014.
- Localizada em uma posição estratégia para a Rússia, a região é o principal acesso do país ao Mar Negro durante o inverno.
- A Crimeia abriga a Frota Russa no Mar Negro, instalada na cidade de Sebastopol.
- Desde o início da guerra, o local é utilizado como base de lançamentos de ataques da Rússia.
- Ligada ao território da Rússia por uma grande ponte, a Crimeia também se tornou um centro de logística para o país liderado por Vladimir Putin.
- É por lá que grande parte das armas e suprimentos são enviados para soldados que estão na linha de frente.

A ponte que liga o território da Rússia a Crimeia — utilizada para o transporte de combustível e material militar para o território ucraniano ocupado — também foi atingida, dificultando a logística russa no conflito.
“Continuamos trabalhando com o quartel-general federal para aumentar os volumes de fornecimento [de combustível]. No entanto, as restrições ainda se mantêm e, provavelmente, irão durar cerca de um mês”, disse Mikhail Razvozhayev, governador da maior região da Crimeia, Sebastopol, durante pronunciamento em 30 de junho.
Depois da ofensiva, a Crimeia passou a enfrentar escassez não só em postos de combustível, mas também na rede elétrica do país, e até mesmo de alimentos, que chegavam ao território através da ponte que ligava a região a Rússia.
Por isso, o chefe da Crimeia, Sergei Aksyonov, decretou estado de emergência na região em 26 de junho, e adotou uma série de medidas como o racionamento de gasolina e energia.
Fruto de trabalho
Além de mísseis balísticos, a Ucrânia investiu — ainda mais — em drones na recente ofensiva contra posições russas. Em maio, por exemplo, o Ministério da Defesa da Rússia admitiu que cerca de 600 drones ucranianos foram lançados contra o território russo, incluindo partes da Crimeia.
Segundo autoridades ucranianas ouvidas pelo Metrópoles sob condição de anonimato, o avanço da Ucrânia “não é consequência de um dia só”, mas sim os frutos de uma estratégia que estão sendo colhidos agora.
Meses após a Rússia iniciar o conflito, o governo ucraniano lançou o programa Army of Drones (Exército de Drones, em português), para avançar no setor de veículos não-tripulados. A iniciativa foi coordenada pelas Forças Armadas da Ucrânia, a organização Congresso Mundial dos Ucranianos (WUC) e o Ministério da Transformação Digital da Ucrânia.
Empossado como ministro da Defesa em janeiro deste ano, Mykhailo Fedorov participou ativamente dos trabalhos que resultaram na criação das Forças de Sistemas Não Tripulados (USF), um ramo das Forças Armadas dedicadas exclusivamente ao uso de drones. Enquanto o projeto era desenhado, e doações eram recolhidas, ele atuava como ministro da Transformação Digital.
Nascido em 1991, Fedorov ficou reconhecido por um perfil focado no uso de tecnologias em guerra, como drones e Inteligência Artificial (IA).
Negociações
Analistas ouvidos pelo Metrópoles afirmam que os ataques ucranianos não estão ligados somente a uma tentativa de retomar o território da Crimeia, mas também forçar uma possível retomada das negociações de paz, estagnadas desde o início do ano.
“O que estamos vendo é uma campanha voltada para a infraestrutura estratégia da Rússia, uma ofensiva voltada para a Crimeia para criar uma pressão muito grande na liderança russa, uma vez que a região é o grande trunfo da ocupação desde 2015”, explica Sandro Teixeira, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro (ECEME).
“A Ucrânia está utilizando suas capacidades tecnológicas em um ciclo de inovação que ainda não houve adaptação russa. As adaptações nesse conflito giram em torno de quatro a seis semanas, então eles [ucranianos] estão tentando aproveitar esse momento para criar um fato político que force a Rússia a retomar as negociações”, acrescenta.
Ainda assim, os últimos balanços militares divulgados por autoridades russas mostram que o país pretende continuar com os combates.
De acordo com o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Rússia, Valery Gerasimov, 29 localidades dentro da Ucrânia foram conquistadas no último mês. Uma área equivalente a 636 quilômetros quadrados, informou o militar.
Além disso, a Rússia prometeu expandir a ocupação na Ucrânia caso os ataques contra infraestruturas do país continuem. Segundo o Kremlin, a medida se justifica pela necessidade de expandir a zona de segurança russa.