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Os brasileiros que ainda falam esperanto, língua criada para unir povos

15 de Agosto de 2026, 17:00 9 visualizações
Os brasileiros que ainda falam esperanto, língua criada para unir povos

Criado no fim do século XIX pelo polonês Lazar Ludwig Zamenhof (1859-1917) com a proposta de facilitar a comunicação entre diferentes povos, o esperanto nunca se tornou a língua oficial de nenhum país. Ainda assim, mais de um século depois, continua sendo estudado e falado por pessoas que enxergam na língua mais do que uma curiosidade, inclusive no Brasil. São perfis variados, como poliglotas, integrantes de movimentos sociais e religiosos, defensores dos direitos humanos e, mais recentemente, jovens que chegaram ao idioma por plataformas digitais.

Presidente da Associação Esperantista do Estado do Rio de Janeiro (Aerj), Marcio Santos conta à coluna GENTE que o ponto em comum entre muitos dos entusiastas está o interesse social ou cultural, sem necessariamente esperar um retorno financeiro. Estimar um número de esperantistas, porém, não é uma tarefa simples. Como é aprendida como segunda língua, não existe um levantamento preciso capaz de distinguir quem apenas estudou de quem efetivamente a utiliza. “Se consideramos todos que já aprenderam a língua poderíamos pensar em aproximadamente dois milhões. Mas se considerarmos os fluentes na língua talvez uns duzentos mil no mundo”.

Ainda que não haja um censo oficial que meça o número de falantes de esperanto no Brasil, estimativas apontam que existem cerca de 50 mil a 150 mil pessoas que conhecem ou falam a língua no país. 

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Para seus defensores, a ideia é permitir que diferentes culturas mantenham suas próprias línguas enquanto ganham uma forma de comunicação compartilhada.

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“Todos os povos respeitando suas culturas, suas línguas, sejam muito ou pouco faladas, vivendo numa maior harmonia”, explica Marcio.

Há ainda uma característica que Santos chama de capilaridade: “Quem aprende inglês, espanhol ou francês, por exemplo, fica preso ao contato com os falantes daquela língua. Já quem aprende esperanto pode falar com qualquer outro esperantista de qualquer país. É uma língua que está em toda parte, apesar de não ter um grande número de falantes. Tem acesso a textos e culturas dos lugares mais variados do mundo e não só dos países de cultura dominante”.

Preconceito contra a língua

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A principal batalha dos esperantistas talvez seja provar que a língua continua viva. Entre os preconceitos mais comuns está a ideia de que seria “uma língua morta, um hobby, uma perda de tempo”. Outro equívoco é imaginar que o projeto pretende substituir as demais línguas. “Ele foi criado para ser a segunda língua de cada povo”, afirma Marcio.

Segundo o presidente da Aerj, a associação do idioma a determinados grupos também criou estereótipos. “No Brasil o espiritismo dá um grande apoio à língua, então muitos acham que esperanto é coisa de espírita. Na Polônia dizem que esperanto é coisa de judeu”, diz Santos, acrescentando que ainda há aqueles que relacionam o idioma à política: “Muitas pessoas de esquerda apoiam o esperanto. Então, para alguns, é considerado assunto de comunista”.

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Onde o esperanto é falado

Embora seja tratada como uma segunda língua, há famílias que educam os filhos em esperanto, tanto no Brasil quanto no exterior. No entanto, o idioma sobrevive principalmente nas relações construídas pela comunidade. Segundo Marcio, há encontros regionais e nacionais, além de intercâmbios com esperantistas de outros países. A prática também inclui músicas e poesias, reuniões religiosas e encontros dedicados exclusivamente ao idioma. “Em todas as situações que temos chance de praticar a língua”, resume Marcio.

A comunidade brasileira também mantém uma agenda internacional. Nos últimos anos, os congressos passaram por Turim, na Itália, pela Tanzânia e por Brno, na Tchéquia. Em 2026, o encontro internacional foi realizado na Áustria. Para 2027, o Rio de Janeiro deve receber o Congresso Pan-Americano de Esperanto, com Niterói e a capital fluminense entre as possibilidades de sede.

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A tentativa de levar o esperanto para as escolas

A permanência do idioma também passa por uma tentativa de ampliar seu alcance entre os mais jovens. Em 2009, chegou à Câmara dos Deputados o Projeto de Lei n 6.162/2009, de autoria do senador Cristovam Buarque, que propõe a inclusão facultativa do ensino de esperanto no ensino médio brasileiro. Quase 17 anos depois, os esperantistas ainda aguardam uma definição.

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A tentativa de manter o esperanto vivo, portanto, não se resume à preservação de uma língua, mas também de um ideal. Segundo os biógrafos de Zamenhof, diante da tristeza provocada pelo início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o criador do idioma acreditava que uma língua neutra e comum poderia ajudar os seres humanos a se enxergarem de forma mais fraterna e contribuir para a diminuição das guerras e dos desentendimentos. Mais de um século depois, essa esperança ainda ecoa entre aqueles que continuam falando, ensinando e defendendo o idioma: “Esperanto unuigos la homaron” (o esperanto unirá a humanidade).

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