Os desafios para manter vivo o legado de Antonio Gades, um dos maiores nomes do flamenco
Mais de duas décadas após assumir a direção artística da Companhia Antonio Gades, Stella Arauzo continua encarando a missão como um exercício diário de responsabilidade. Ex-bailarina da companhia fundada por Antonio Gades (1936-2004), um dos maiores nomes do flamenco, e principal guardiã da obra do coreógrafo espanhol, ela afirma que preservar o legado do mestre exige muito mais do que reproduzir coreografias históricas: é preciso transmitir uma filosofia baseada em humildade, trabalho coletivo e verdade artística, conforme ela conta em entrevista a VEJA. A companhia de dança flamenca está no Brasil pela primeira vez desde 2019, para se apresentar no Rio de Janeiro no Teatro Municipal, e em São Paulo, no Teatro Bradesco.
À frente do grupo desde 2004, pouco depois da morte de Gades, Arauzo admite que não tinha plena dimensão do desafio quando aceitou o cargo. Segundo ela, o retorno à companhia representou uma volta para casa, impulsionada mais pelo afeto e pela vontade de manter o projeto vivo do que por uma avaliação racional do peso da responsabilidade. A consciência da dimensão da missão, conta, veio apenas anos depois, quando percebeu que tinha nas mãos a continuidade de uma das mais importantes companhias da dança espanhola.
Confira a entrevista completa com Stella Arauzo:
Como é encarar a passagem do tempo, especialmente hoje, sendo a responsável por manter vivo o legado de Antonio Gades? Como tem sido essa experiência? Olha, a passagem do tempo e o desenvolvimento do trabalho que realizo são, verdadeiramente, uma grande responsabilidade. Muita, muita responsabilidade mesmo. É uma vida inteira dedicada a esta companhia, tanto no início como bailarina, quanto agora como diretora. É uma grande responsabilidade, mas também um privilégio enorme que eu nunca teria imaginado quando era mais jovem. Às vezes a responsabilidade pesa; outras vezes é mais leve, e me sinto mais inspirada para tudo o que preciso realizar. Mas, acima de tudo, tento nunca perder a humildade e a honestidade, que eram as coisas que Gades mais nos inculcava naquela época. Tento não perder as lembranças, as sensações e todos os sentimentos que ele nos provocava com aquele carisma e aquela força que possuía.
Em 2004, após suas passagens pelo Tablao Rincón de Chinchiritas e pela direção da partitura de Juan Andrés Maya, você assumiu a direção artística da Companhia Antonio Gades. Como gerenciou esse período de tantas mudanças e o desafio de se colocar à frente da companhia após a perda do mestre? Sabe, eu sempre fui uma bailarina de teatro. Mas, como meu marido era de Granada e vivíamos lá, eu sempre tive muita relação com Juan Andrés Maya, com Manolete, com os bailaores e com o mundo do flamenco de tablao — que, como você sabe, é diferente do flamenco de teatro. Aquilo me chamava muito a atenção e era muito interessante para que eu continuasse aprendendo outras coisas. Voltar para a companhia de Gades em 2004 foi, na verdade, voltar para casa. Voltar para casa porque, além de dirigir, eu também dançava a Carmen. Mas era um retorno para casa a partir do desamparo de não ter mais o mestre, embora eu estivesse rodeada de companheiros que foram muito importantes naquele momento — como meu marido (Antonio Solera), Gómez de Jerez (outro cantor que passou a vida toda com Gades), alguns colegas da época do próprio Gades e outros totalmente novos.
Foi muito difícil? Para ser sincera, acho que eu não tinha plena consciência. Não tinha consciência suficiente do tamanho do desafio em que estava me metendo. Eu fui com amor, com o coração aberto para transmitir às novas gerações e aos novos artistas aquilo que tinha sido a paixão da minha vida inteira, tanto pessoal quanto profissionalmente. Fui de coração aberto, mas sem medir o peso da responsabilidade. Isso veio mais tarde. A real noção do tamanho dessa responsabilidade só bateu uns dois ou três anos depois, quando comecei a pensar: “Uau, onde eu fui me meter?”. Mas, no início, foi puro impulso, coração aberto e amor. Eu pensava: “Vamos em frente, precisamos colocar isso de pé”. Essa foi a primeira abordagem para dirigir e montar a homenagem que fizemos em 2005 no Teatro de La Zarzuela, e a partir dali a companhia seguiu.
Sob a sua direção, a companhia voltou a encenar clássicos absolutos como Carmen, Bodas de Sangue e Suite Flamenca. Qual é o maior desafio na hora de manter essas coreografias vivas e relevantes para as novas gerações de bailarinos e espectadores? Incrivelmente, por mais que se fale muito dela, a Carmen é quase a mais difícil de manter o mais fiel possível ao que Gades queria. Porque Bodas de Sangue é a essência pura de Gades: as linhas, as formas. Suite Flamenca, no final das contas, traz a mesma essência e linhas, mas com música ao vivo, mais próxima do formato tradicional. E Fuenteovejuna caminha sozinha; ela foi pensada de tal maneira que, se você fizer o trabalho que precisa ser feito com cada personagem e com o povo, ela flui. Carmen é, para mim, a mais frágil. Embora pareça o nosso grande carro-chefe — aquela obra que chega impactando —, é a mais frágil de conservar porque depende de ritmos muito sutis. Os silêncios que existem em Carmen, as respirações… ela é a mais complicada de manter com a mesma força feroz que Gades deixou.
A crítica reconhece que a sua lealdade e o seu profundo conhecimento da filosofia de Gades devolveram a companhia à elite da dança espanhola. Para você, qual é o núcleo inegociável da filosofia artística de Antonio Gades que faz questão de manter? O inegociável para mim são os egos. Manter os egos artísticos bem controlados, deixando para tirá-los da caixa apenas no palco, no momento certo, mas sempre a serviço do espetáculo. A importância máxima do trabalho em equipe. O que eu mais sinto na filosofia de Gades é que o protagonista é tão importante quanto o último bailarino da fila, o técnico de som, ou a pessoa que está cuidando de nós nos camarins para que possamos entrar em cena nas melhores condições. Se falamos da parte cênica, o foco é o trabalho em equipe. É equipe e humildade máxima. Honestidade máxima com você mesmo e com o público. Acima de tudo, nunca buscar o aplauso fácil, nunca fazer algo apenas para aparecer. Buscar a verdade. Ser verdadeiro e ser muito honesto, é isso o que eu mais trabalho com eles. Estamos à disposição do espetáculo, o que nem sempre é fácil para o artista porque, naturalmente, o artista às vezes sente a necessidade de se mostrar. Gades também tinha uma forma de permitir que você se mostrasse, mas sempre com a dignidade e a humildade que ele próprio tinha. Isso é o mais difícil de trabalhar, e é algo que não posso abrir mão. Não posso dar essa liberdade total; preciso dizer: “Temos que seguir por aqui”. Mas com a alma e o coração, sempre.
A companhia está retornando ao Brasil para se apresentar em palcos imponentes como o Teatro Municipal e o Teatro Bradesco. Para você, o que o público brasileiro tem de diferente que desperta essa vontade de se apresentar especificamente neste país? O Brasil é um país de música, é um país de dança. É um lugar onde as pessoas sentem a arte, um país caloroso que compreende o ritmo — e o flamenco também é ritmo, é swing, é flow. Então, o que mais nos move ao estar no Brasil é o que nos preenche como artistas: saber que as pessoas que estão no teatro entendem a dança e entendem o ritmo. Elas compreendem. A dança de Gades é algo que vem muito de fora para dentro em termos de sentimentos; ela não é puramente explosiva. Há o momento da explosão, mas quando você vê o público aplaudindo de pé, feliz e apaixonado, você se sente a pessoa mais feliz e realizada do mundo. O Brasil é um país essencialmente musical e da dança, e isso nos preenche enormemente.
Como o flamenco consegue ser uma arte que resiste ao tempo e à modernidade, ainda despertando tantos sentimentos no público atual? O flamenco está vivo, vivíssimo, principalmente porque ele se alimenta de tudo. O Brasil, por exemplo, tem uma grande influência no flamenco também — refiro-me ao flamenco como música, não tanto como dança. Ele se mantém vivo em tantos países porque fascina músicos de outras culturas, assim como outras músicas nos fascinam, gerando fusões. Dessa forma, ele não morre, não fica para trás; segue sempre avançando. No caso do estilo de Antonio Gades, é algo um pouco mais específico de uma época. Mas, como ele era um gênio, ele bebia direto das fontes da tradição e do povo para levar isso aos palcos. No fim, há sempre uma verdade que é a verdade humana. E a verdade humana está sempre viva. É o que estávamos falando antes: a paixão, a sensualidade, a sexualidade, a feminilidade, a masculinidade, a vida, a morte… tudo o que é humano. Por isso está vivo. O flamenco em si está supervivo porque se alimenta e também alimenta outros músicos. Há sempre um feedback, uma troca. Eu o vejo muito vivo, de verdade.
Ao olharmos para o panorama da dança neste ano de 2026, onde às vezes predomina o exibicionismo técnico ou o virtuosismo rápido, como você consegue fazer com que os jovens bailarinos da companhia abracem a filosofia de Gades? Faço um trabalho de conquistá-los, de fazer com que as novas gerações se apaixonem. Infelizmente, restam poucos companheiros da velha guarda, porque alguns já nos deixaram ou se aposentaram. Antes eu contava com mais colegas daquela época; hoje tenho apenas três ou quatro na companhia que conheceram o Gades pessoalmente. O restante da companhia recebe essa herança diretamente de mim. O que eu faço é fazê-los se apaixonar pela proposta. Preciso que eles compreendam que, se não dançarem com essa contenção, o virtuosismo gratuito — que, aliás, Gades odiava — não os levará a criar o sentimento que ele queria transmitir. Eles precisam entender o contexto de onde estão dançando. Assim como se você estivesse na companhia de Alvin Ailey ou da Martha Graham, você precisa seguir aquela forma concreta pela qual esses criadores quiseram contar suas histórias e criar seus personagens.
No Rio de Janeiro, as apresentações acontecem no Theatro Municipal, nos dias 19, 20 e 21 de junho. Em São Paulo, a temporada será no Teatro Bradesco, nos dias 23 e 24 de junho. Os ingressos já estão à venda no site feverup no Rio, e no uhuu em São Paulo.