Os heróis imigrantes da classificação dos Estados Unidos
Folarin Balogun fez de um tudo nesta quarta, 1º de julho, no estádio da Área da Baía de San Francisco. Fez um golaço aos 14 minutos do primeiro tempo, driblando um zagueiro com a perna direita e batendo rasteiro de esquerda no canto, mas juiz anulou. Impedimento. Aos 45 repetiu a dose, dessa vez entre as pernas do goleiro, e dessa vez valeu. Comemorou como seu ídolo Lebron James, batendo no peito, andando em marcha, com as palmas das mãos para baixo como quem manda o estádio se acalmar, ficar em silêncio.
Continuou jogando como se fosse o último dia de sua vida, com tanta energia que passou do ponto. Aos 18 minutos do segundo tempo, Balogun disputou uma dividida com o zagueiro Muharemovic e pisou no tornozelo do adversário. Acidentalmente, ao que parece, mas o árbitro brasileiro Rafael Claus lhe apresentou o cartão vermelho.
A seleção americana não sentiu tanto a expulsão, e conseguiu controlar o jogo. Aos 36, o volante Malik Tillman selou a classificação dos Estados Unidos com um bonito gol de falta, por cima da barreira, que o goleiro Vasilj aceitou.
A vitória classificou os Estados Unidos para as oitavas de final, para enfrentar a Bélgica na segunda,, 6 de julho, no estádio de Seattle.
O curioso é que os dois heróis da partida são imigrantes – Balogun nasceu em Nova York quase que por acaso, pois seus pais, nigerianos, moravam em Londres, e foi lá que o atacante cresceu desde bebê. Já Tillman tem nacionalidade porque seu pai é americano, mas ele mesmo nasceu em Nuremberg, na Alemanha.
O acidente que virou destino
Balogun nasceu em Nova York em 2001 por uma razão prosaica: sua mãe, Florence, então grávida de sete meses, foi impedida de embarcar em um voo de volta para Londres durante uma viagem de férias. A família retornou à capital britânica menos de dois meses depois, com um bebê de passaporte americano.
Florence nunca teve dúvida sobre o que aquilo significava. “Mesmo quando ele nem estava pensando em tomar uma decisão sobre seleção, eu já havia decidido: ele vai jogar pela América”, disse ela dias antes da Copa começar.
Balogun cresceu em Londres, entrou para as categorias de base do Arsenal aos oito anos e chegou a jogar nas seleções de aspirantes da Inglaterra, marcando sete gols em 13 partidas pelo time sub-21. Mas foi na França, primeiro pelo Reims e depois pelo Monaco, onde marcou 13 gols em 30 partidas na última temporada da Ligue 1, que ele chamou a atenção da federação americana, e em 2023 ele pediu oficialmente à Fifa que fosse registrado como americano para possíveis convocações – o jogador precisa escolher apenas uma de suas nacionalidades no mundo do futebol, e Balogun teve que abdicar de jogar por Inglaterra ou Nigéria.
O próprio jogador falou sobre o tema nesta semana, em coletiva de imprensa. “Sinto que tudo aconteceu dessa forma por um motivo, é inexplicável o quão especial e única é a minha história. Tenho muito orgulho de ser americano. Estamos na Copa do Mundo, essa é uma oportunidade para os torcedores me conhecerem melhor”, afirmou.,
Na estreia da seleção americana contra o Paraguai, Balogun já havia dado um sinal do que estava por vir: tornou-se o 1º jogador dos Estados Unidos a marcar dois gols em uma mesma partida de Copa do Mundo desde 1930, feito inédito em 96 anos.
Nascido na Alemanha, coração americano
Malik Tillman nasceu na Alemanha pois seu pai é militar, e morava em uma base americana no país. Passou a vida toda morando na Europa, ainda que num ambiente essencialmente americano. Frequentou as categorias de base do Bayern de Munique e representou a seleção sub-21 da Alemanha antes de optar pelos Estados Unidos em 2022. A lógica era simples: “Na Alemanha, acho que não estaria com a seleção nos próximos dois anos. Aqui, vejo minha chance”, explicou à época.
A carreira no clube seguiu o mesmo roteiro de quem precisa provar seu valor em cada etapa. Depois do Bayern, foi emprestado ao Rangers, na Escócia, onde foi eleito jovem jogador do ano pela PFA Scotland após marcar 10 gols. Passou pelo PSV Eindhoven, conquistou dois títulos holandeses consecutivos e foi contratado pelo Bayer Leverkusen em 2025 por cerca de 35 milhões de euros, um dos maiores valores já pagos por um jogador americano. Marcou na estreia.
O protagonismo dos dois ganha um sentido especial no dia seguinte a uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que rejeitou um decreto assinado pelo presidente Donald Trump que declarava que filhos de turistas ou de imigrantes em situação irregular não são cidadãos americanos. A decisão do tribunal teve como base uma interpretação consolidada há anos na Constituição de que qualquer pessoa nascida no país, com exceções limitadas, deve ser considerada cidadã, mesmo que os pais não sejam.
Foi a reafirmação, em cadeia nacional e ao som de 71 mil torcedores gritando USA (EUA, na sigla em inglês), do que significa o sonho americano. Assim como a surpreendente campanha da seleção na Copa, esse sonho continua.